VGIP11 Valora CRI Indice de Preco Fundo de Investimento Imobiliario – Cotação Hoje
Valora CRI Indice de Preco Fundo de Investimento Imobiliario
CNPJ: 34197811000146
Selo de Investimento:
🏢 Renda SólidaAtende a 10 de 11 critérios fundamentais de consistência e solidez para renda imobiliária.
Checklist Fundamentalista de 11 Critérios
Critérios de consistência e valuation auditadosRetorno em dividendos nos últimos 12 meses superior a 6% ao ano
Pagamento regular de rendimentos em pelo menos 10 dos últimos 12 meses
Cota negociada sem ágio exagerado sobre o valor patrimonial
Ausência de desconto extremo que possa sinalizar vacância crônica ou risco de crédito
Sem quedas abruptas (superiores a 30%) no valor médio distribuído recentemente
Fundo de porte relevante com maior capacidade de diversificação e resiliência
Volume diário adequado para negociação ágil e spreads reduzidos no book
Atuação em setor com histórico maduro de geração de renda imobiliária
Histórico operacional comprovado em diferentes ciclos econômicos
Rendimentos saudáveis sem sinais de amortizações ou distribuições extraordinárias
Nível de ocupação saudável dos imóveis para garantir a receita de aluguéis (Ignorado para fundos de papel)
Método Barsi (Preço Teto 6% a.a.)
Estratégia focada em renda imobiliária com cálculo do preço máximo da cota para obter no mínimo 6% ao ano em proventos com base nos rendimentos dos últimos 12 meses.
Composição da Carteira & Ativos do Fundo
📊 Alocação por Classe de Ativo
Principais Títulos & CRIs em Carteira
Consulte o Raio-X completo de ativos, passivos, alavancagem, cotistas e histórico de 12 meses do VGIP11.
Resumo Fundamentalista de VGIP11
O ativo VGIP11 (Valora CRI Indice de Preco Fundo de Investimento Imobiliario) está sendo negociado hoje a R$ 71,53, acumulando uma variação de -0.72% no pregão. Nos últimos 12 meses, a cotação oscilou entre a mínima de R$ 71,47 e a máxima de R$ 85,54. O fundo atua no segmento de Papel / CRI, registrando um Dividend Yield (12M) de 14.48% e indicador P/VP de 0.79x.
Histórico de Cotação: VGIP11
Evolução do preço diário oficial e indicadores de tendência
Indicadores do Fundo Imobiliário (FII)
Sobre a VGIP11
O VALORA CRI FII RL (VGIP11) é um fundo de investimento imobiliário listado na B3. O fundo possui mandato de não informado e atua no segmento de Multicategoria, com gestão Ativa.
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Alemanha em travagem: é a Europa que vai pagar? — Debate
Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões. Muito bom dia. Onde antes se multiplicavam elogios à capacidade alemã, sobram agora perguntas. Uma delas é a que nos traz hoje aqui no Contracorrente: como é que a crise alemã se vai refletir nos outros países europeus? E mais do que isso, Helena Matos, nós, portugueses, temos razões para estarmos preocupados? Sim, nós temos razões para estarmos preocupados, quer do ponto de vista econômico, e depois é claro que as mudanças que estão a acontecer politicamente na Alemanha, com uma enorme polarização, embora não estejamos a falar das eleições para escolher o chanceler, mas há ali sinais que nos devem fazer pensar. De qualquer forma, eu achei curioso que, às vezes, nós levamos anos a elogiar a previdência alemã, a previdência no sentido da capacidade de antecipação, a sua racionalidade, a capacidade que tiveram de tomar medidas. Tudo isso em face à nossa imprevidência do sul. O que é curioso é que, antes de falarmos em como é que estamos agora, às vezes há sinais, há coisas simbólicas, quando nós de repente abrimos um site de notícias ou um jornal em papel, ou olhamos para os oráculos na televisão e vemos que a Volkswagen vai despedir, vai fechar a fábrica, há aqui qualquer coisa. 100 mil pessoas. Pois, e não é pouco. No fim, talvez não sejam bem 100 mil, mas é um sinal, sem dúvida. Mas são muitas pessoas. São muitas pessoas. E, sobretudo, estamos a falar de uma empresa que não tem propriamente essa tradição, porque nós muitas vezes, nos Estados Unidos, em relação a grandes empresas, assistimos a isso. Um dia despedem, no dia seguinte contratam, mas estamos a falar de uma economia com outras dinâmicas. Mas aqui, por acaso, eu acho que houve algo que de repente olhei e pensei. Enfim, e isso teve a ver com as declarações de um ministro alemão, eu vou dizer o nome dele. Nós já temos em estúdio a Helena Ferro Gouveia, que certamente poderá corrigir a forma como eu digo o nome. "Sprichen Deutsch". Não, Gunther Krichbaum. Gunther Krichbaum. Está quase. Está muito bom. Pronto. E é curioso, porque ele reagiu a umas declarações de António Costa, nas suas funções de presidente do Conselho Europeu. Como nós sabemos, está a haver negociações, contactos, aquilo que nós lhe quisermos chamar, por causa das negociações para o próximo orçamento de longo prazo da União Europeia. E António Costa, como é óbvio, quer mais dinheiro, fala em recursos próprios, e aqui os recursos próprios da União Europeia só têm um nome, que se chama impostos. Só há uma maneira de se chegar a esses recursos próprios: é os estados-membros conseguirem assegurar mais verba, e só se assegura mais verba através de impostos. E isso é particularmente complicado neste momento em todos os países da União Europeia, em uns mais do que noutros, mas como é que este ministro alemão, e geralmente os alemães pautam-se por alguma reserva nas declarações que fazem, e ele faz estas declarações: "É de questionar se o senhor Costa já terá perdido completamente o contacto com a realidade". Fim de citação. Ou seja, há aqui uma verbalização, que nós justa ou injustamente não associamos muitas vezes aos alemães, mas há aqui esta verbalização quase que de alguém que está numa exasperação e que, portanto, de repente diz de uma forma desabrida, dá conta de algo que ele também define como: "Todos sabem que o céu não é o limite". Ou seja, nós tivemos aqui quase que uma versão latina de um ministro alemão. Se tivesse sido um ministro de um país do Sul, achar-se-ia que era por ser de um país do Sul, mas não, é um alemão. Isto dá um pouco conta daquilo que é neste momento a pressão em que se encontra quem tem responsabilidades políticas na Alemanha, e essa pressão tem dois campos. Tem um campo político, de que muito se tem falado e de que hoje também aqui falaremos, e essa pressão passa claramente por aquilo que está referido como a polarização, e como a Helena Ferro Gouveia bem nos lembrou mal entrou no estúdio, eu já andava a falar disso há muito tempo, esta polarização entre os dois extremos. Mas esta polarização leva a algo que é politicamente muito complicado e que vai muito para lá da Alemanha propriamente dita, que é quando para assegurar condições de governabilidade, se passa a adotar mecanismos em que diferentes atores políticos resolvem que o regime democrático se tem de defender dos eleitores. Isto pode parecer um paradoxo, mas é quando nós começamos a olhar para os resultados eleitorais pensando como é que podemos fazer aqui uns arranjos para que quem ganhou não governe. E isso, podendo ser uma saída a muito curto prazo, a médio prazo pode vir a tornar-se ainda mais perverso, porque gera no eleitorado um enorme ressentimento que nós não sabemos como é que se vai expressar no futuro. Porque, por exemplo, nós assistimos Em algumas destas candidaturas que houve recentemente na Alemanha, por exemplo, houve realmente, até em alguns casos, um afastamento, e aqui estou a pensar em candidaturas da AFD. Mas onde isso acontece, em que o candidato da AFD não foi a votos porque não pode ir, na verdade, a AFD não ganhou, mas quem ganhou mesmo foi a abstenção. E, portanto, se seguir nesta via de conseguir excluir alguns candidatos e, sobretudo, de arranjar formas para que quem ganha não vote, quais é que vão ser as consequências disto a médio prazo, em termos dos eleitorados? Esta é uma pergunta e a resposta pode não ser necessariamente boa. Para lá desta questão política, que já per se é muito complicada, porque é óbvio que temos um partido de extrema-esquerda a ganhar em Berlim, temos um partido de extrema-direita a ganhar eleições regionais na Alemanha, sabendo-se que o centro terá chegado aqui completamente erosionado, em boa parte, porque não foi capaz de resolver questões, também elas políticas, podemos pensar o que é que vai acontecer no futuro. Em cima disto, junta-se um sentimento que os franceses já vivem há algum tempo, e sabemos os efeitos perversos que tem, que é a ideia de que sendo, e estamos a falar de uma economia que vale 3%, a economia alemã vale 3% da economia mundial, não estamos a falar de qualquer coisa. Quem nos dera a nós portugueses valermos 3% da economia mundial. Mas também depende muito do lugar de onde se parte. E, portanto, quando a Alemanha pode vir, por exemplo, a ver-se ultrapassada pela Índia, quando se vê que a Volkswagen pode vir a fechar fábricas. Pode dizer-se: bem, quem nos dera a nós os problemas económicos, os políticos dispensamos bem, mas os económicos da Alemanha. Mas a verdade é que nestes momentos são particularmente de vulnerabilidade para os povos, porque há aqui um sentimento de perda, mesmo quando aquilo que se está a perder seja num patamar muito lá à frente. Agora, é claro que, e agora transpondo isto aqui para um lado mais europeu, nós habituámo-nos a um tempo em que havia aquilo que nós chamávamos um eixo Berlim-Paris. E a verdade é que neste momento o nosso eixo, quer dizer, um eixo para funcionar tem que ter... Dois polos. Exatamente. Onde é que estão? Paris, sabemos como está, e Berlim também. Ou seja, o eixo anda à procura de outra coisa qualquer, porque realmente já não tem, ou pelo menos nós teremos eleições no ano que vem em França, que vão obviamente obrigar, independentemente do resultado, e o resultado pode ser também um bocadinho alemão. Ou seja, nós temos neste momento uma campanha, alguém que é dada como pré-vencedora, que é a Marine Le Pen, mas é preciso que se entenda o que é que está a acontecer à esquerda com o Mélenchon. E Mélenchon está com uma dinâmica de crescimento aterradora. Está com uma dinâmica de crescimento muito grande e, portanto, há aqui um lazo daquilo que pode acontecer em Paris, nas eleições francesas, muitíssimo complicado. Eu sei que o Macron esteve nas Nações Unidas, faz sempre aqueles discursos extraordinários, mas só fora de portas. Porque dentro de portas, às vezes é quase como se os líderes, quando estão muito acossados internamente, a projeção no espaço internacional acaba já quase por ser o seu terreno de conforto. Nós vemos isso com o Sánchez, desculpe interromper, Helena. Sim, mas até mesmo noutras áreas políticas, muitas vezes isto acontece. E as próprias dificuldades que está a ter neste momento o Macron com a visita do Papa, todas aquelas coisas muito crispadas, só se entendem à luz daquilo que está a acontecer em França. E, portanto, temos o que é uma Europa que se habituou a viver desta forma. Por um lado, nós como países do Sul sabemo-lo bem, beneficiamos muito dos fundos, dos apoios que vinham dos países do Norte. Portanto, quando os países do Norte começam a fechar os cordões à bolsa e, na prática, a dizer, como fez o ministro alemão, todos sabem que o céu não é o limite, há aqui algo que nos deve fazer preocupar, não apenas por isso, mas também porque hoje já temos outros atores na União Europeia, os países que faziam parte do leste e que têm uma outra resiliência face às circunstâncias. Portanto, temos isto e por aí temos razões para estar preocupados, seja pela parte europeia propriamente dita, dos fundos europeus, do orçamento Que tanto preocupa agora o nosso anterior primeiro-ministro, e sendo também esta enorme burocracia europeia que custa muito todos os dias e que muitas vezes não consegue corresponder às expectativas, pelo menos dos europeus. Temos esta parte, temos a parte política e sim, vai impactar. E nós temos razões para estar preocupados. Aquele que era o motor da Europa começa a apresentar sinais de que pode estar a ter alguns problemas. De facto, essa questão coloca-se. Eu recordo, por exemplo, nós hoje já não temos isto. Quando o Hollande ganhou as eleições em França e vai encontrar-se com a Angela Merkel. Essa Europa, de alguma forma, já não existe. Já não existe nesse sentido. E cabe também perguntar se muitas vezes aquilo que nós tivemos como a grande reflexão alemã, a sua enorme capacidade de tomar as medidas certas, e algumas foram tomadas, mas também, na minha opinião, e acho que seria importante se hoje conseguíssemos discutir isto aqui, se não houve, para aquilo que são as particulares circunstâncias da Alemanha, não houve, às vezes, uma enorme precipitação. Parece quase paradoxal eu estar a dizer isto em relação à Alemanha, mas muitos dos problemas da Alemanha, hoje, Alemanha concretamente, decorrem de duas decisões tomadas em cima do momento, se fosse falar dos latinos, dizia-se em cima do joelho, por alguém que sempre associámos à reflexão, à ponderação, que é a Angela Merkel. Estou a referir-me, por exemplo, à decisão de 2011 de encerrar as centrais nucleares. Tinha acontecido o acidente de Fukushima. O acidente de Fukushima foi, se não estou em erro, numa sexta-feira e na terça-feira seguinte, Angela Merkel anuncia ao mundo e à Alemanha que oito reatores iam fechar logo e depois os outros, o seu fecho era em muito antecipado, porque por causa dos verdes, já havia esta questão do nuclear sim ou não, mas tudo isto estava feito para um calendário muito mais longo e são fechados oito reatores nessa terça-feira e depois os outros são fechados e o último, com o calendário antecipado, teve que trabalhar, apesar de tudo, mais um ano, porque entretanto tinha acontecido a guerra da Ucrânia e nós tínhamos percebido a armadilha do gás russo. E entretanto, no meio disto tudo, tinha acontecido um volte face na opinião pública alemã também face à energia nuclear. E a opinião pública, que estava contra a energia nuclear em 2011, tinha mudado substancialmente de ideias depois. Foi uma decisão tomada assim, de um momento para o outro, 2011, e muitos dos problemas hoje, em relação à Alemanha, decorrem desta questão energética. Depois também a destruição, e eu acho que o termo não é exagerado, da competitividade da indústria automóvel, a partir de uma transição energética, que na prática, para se transitar, como nós bem sabemos, temos que transitar de uma coisa para a outra. Não havia nada para transitar e o que aconteceu é que se acabou a favorecer a indústria chinesa e a desgraçar a indústria europeia. Soube aproveitar bem a transição. Até porque não tem os constrangimentos que os europeus têm. Maioramente ambientais. Ambientais e de direitos de trabalhadores e mais alguma coisa. Não tem os sindicatos alemães. Sim, não tem os sindicatos alemães, não tem a imprensa alemã, não tem as oposições. Assim concorrer é fácil. Depois, temos, por fim, uma outra decisão, que eu acho que também se trata de discutir como é que foi tomada, porque esta em relação à indústria automóvel demorou mais tempo. Mas, por exemplo, em relação esta outra decisão de 2015, também ela foi muito rápida, aconteceu no mês de agosto, 2015, quando a Angela Merkel resolve abrir as fronteiras da Alemanha aos refugiados, imigrantes provenientes, sobretudo da Síria, mas não só, com aquela célebre frase: "Nós vamos conseguir", numa perspectiva de acolhimento imediato das pessoas, sem perceber que, tendo em conta a dimensão do fluxo, a palavra integração ganhava ali outras dimensões. Acho que há muita matéria para falarmos sobre a Alemanha e, sobretudo, percebermos que o motor da Europa, e era o motor do ponto de vista económico e também muitas vezes quase que o exemplo daquilo, da forma ponderada como nós devíamos agir e decidir, e que se calhar não foi tanto assim. Não foi tanto assim. Já temos em estúdio, como dizias há pouco, e já tivemos a oportunidade de ouvir a Helena Ferro Rovira, analista de assuntos internacionais, viveu duas décadas na Alemanha? Vinte anos. Vinte anos, duas décadas na Alemanha. Helena, isto já era previsível ou não, esta crise alemã e que nos contagia a todos? Bom dia, antes mais, obrigada pelo convite. Quem me tem ouvido e lido, e muitas vezes aqui no Observador, eu vinha alertando há muito tempo, quer para a polarização política, quer para um conjunto de questões que foram aqui elencadas pela Helena Matos. E de facto, estas duas decisões que foram aqui referidas, e eu recordo-me perfeitamente, não só de Fukushima, porque na altura eu era jornalista e estava a fazer a moderação De madrugada, tinha um programa de madrugada quando soubemos de Fukushima, portanto acompanhei muito de perto. Dei a notícia e acompanhei muito de perto depois todas as decisões políticas e as discussões. E a questão do nuclear na Alemanha foi muito discutida com o surgimento do partido ecologista Os Verdes e havia pessoas acorrentadas aos carris de caminhos de ferro e havia sempre movimentações policiais enormes quando eram transportados os resíduos nucleares, que é a grande questão ambiental, tinha a ver com os resíduos. Havia sempre um enorme folclore em termos do nuclear, e o nuclear havia uma espécie de consenso social que era algo para acabar com as pessoas mais ponderadas a dizerem: "Atenção, mas nós não temos mix energético que nos permita encerrar as centrais nucleares sem recorrermos ao carvão muito mais poluente" ou à solução que foi adotada, que foi a compra de gás russo a preços de saldo e que criou aqui uma dependência muito grande da economia alemã do gás russo. Foi uma política que não foi pensada, foi um ato irrefletido da Angela Merkel, que curiosamente foi ministra do ambiente de Helmut Kohl e tinha também esta posição antinuclear, era uma coisa que já era dela. Portanto, a decisão explica-se assim. A segunda decisão foi uma decisão que eu também vivi em 2015 e todos nós sentimos muito a guerra da Síria, aliás, por inação de um presidente que é muito incensado e muito louvado internacionalmente, que é Barack Obama, e que traçou linhas vermelhas que foi incapaz de cumprir. E portanto, parte da responsabilidade deve-se a Barack Obama e à sua inação, mas houve uma guerra com aquelas consequências e todos nós sentimos a tragédia daquilo. Os Estados Unidos são do outro lado do Atlântico, quem está próximo são os europeus. Com certeza, mas toda a Europa sentiu e esta questão na Alemanha foi muito vivida e as pessoas receberam os sírios de braços abertos e genuinamente desejando que aquelas pessoas tivessem segurança. Eu própria, já o contei várias vezes, tive duas famílias sírias a viver em minha casa com a minha família, que foram da primeira vaga e que se integraram perfeitamente. Depois também temos que distinguir aqui as vagas. Agora, depois tornou-se incomportável. Eu fui durante muito tempo, e peço aqui esta parte, fui voluntária precisamente para trabalhar com refugiados sírios. E houve quem se quisesse integrar, quem fizesse os cursos de alemão, quem pusesse os miúdos na escola, mas houve muitas dificuldades. E ainda falávamos de uma primeira vaga, depois houve mais vagas. E o facto de chegar muita gente ao mesmo tempo, de uma cultura que é completamente diferente da nossa, e isto tem que ser dito, não podemos ter pejo nas palavras, e isto não é ser xenófobo, não é ser racista, é enfrentar a realidade. Criou aqui muitos problemas, porque quando nós olhamos para a AFD, que hoje nos assusta a todos. Eu estou a falar da AFD desde 2013. Já vamos ter a oportunidade de falar. Estas coisas são interligadas, porque nós não podemos compreender os fenômenos, quer da AFD, quer no Die Linke, sem olharmos para estas questões matriciais, mas eu falo mais à frente. Mais à frente. Temos um convidado, mas eu só queria aproveitar esse momento em que estamos a falar de 2011 e 2015 para fazer uma pergunta: não terá havido alguma arrogância por parte da Alemanha nesse período, 2011, 2015? Tens que olhar para a Angela Merkel. É o contexto da crise das dívidas soberanas, do castigo, entre aspas, imposto pela Alemanha aos países do Sul. Não terá havido aí alguma... Algum querer ser amada? Por exemplo. Não, muito rapidamente. A Alemanha reformou-se. Aquilo que a Alemanha exigiu aos países do Sul foi feito internamente. Reformas duríssimas, feitas por Gerhard Schröder, de quem eu não gosto nada e que tem a posição que tem pró-russa, mas teve a coragem de reformar a Alemanha. E portanto, a Alemanha quando impôs aos outros, impôs diretamente. E depois eu gostava de voltar ao Günter Grass spam, porque é interessante falarmos nisto. E depois, isto teve a ver com a Angela Merkel, genuinamente o Wir schaffen das, o nós conseguimos, tem a ver com a Angela Merkel, que era filha de um pastor protestante, alguém que acreditava na solidariedade humana. E foi este lado mais pessoal da chanceler, irrefletido para alguém que era muito ponderado, que nos conduziu até onde estamos. Mas isto prende-se muito com a biografia da chanceler, não necessariamente com a necessidade de ser amada. Os alemães não ligam muito a esse tipo de coisas. São muito autossseguros e ainda bem que o são. Muito bem. Já temos em linha o Luís Almeida Sampaio, diplomata, embaixador de Portugal em Praga. Muito bom dia. Obrigado por ter aceitado o convite para estar aqui conosco. Muito bom dia. Eu já não sou embaixador em Praga, estou reformado, mas fui embaixador em Berlim e na NATO. Muito bem. E fui embaixador em Berlim justamente quando acompanhou o ajustamento econômico e financeiro, o programa de ajustamento econômico e financeiro, e obviamente os meus interlocutores quotidianos eram na chancelaria federal, não só a chanceler, mas também os seus principais conselheiros. Eu ia mais vezes à chancelaria e ao Ministério das Finanças do que ao Auswärtiges Amt, que é, como sabem, o ministério alemão dos Negócios Estrangeiros. Portanto, tenho muito gosto em participar. Muito obrigado a todos, muito gosto em participar e agradeço à Helena Matos este título muito evocativo para esta vossa emissão, perguntar se o motor alemão gripou. Eu diria, para começar a minha reflexão, que o motor alemão não gripou. Não? Não, não gripou. Tem, no entanto, três fragilidades. Perdeu potência, perdeu, sobretudo, previsibilidade e perdeu capacidade de tração política. A Alemanha dispõe de recursos para recuperar, e este aspeto é fundamental. Em vez de uma perspetiva absolutamente negra, catastrofista do futuro da Alemanha, é preciso compreender que a Alemanha tem efetivamente recursos para recuperar. O problema é saber se terá tempo político, se este governo, se este chanceler terá tempo político e sobretudo a determinação reformista Para efetivamente fazer com que a Alemanha recupere antes que a fragilidade econômica se transforme numa crise europeia. E esse aspecto é o aspecto fundamental. Qualquer fragilidade econômica na Alemanha tem o potencial de se transformar, a prazo, numa crise europeia, da qual todos seremos obviamente vítimas, da qual todos sofreremos. Portanto, eu diria que o motor alemão funciona claramente abaixo da sua capacidade, precisa de uma revisão profunda. Há uma recuperação conjuntural, mas há problemas estruturais muito sérios. E quando a Alemanha perde o dinamismo econômico e a estabilidade política, toda a Europa perde capacidade de decisão. Eu posso, no momento oportuno, tentar elencar quais são, na minha opinião, os problemas estruturais e, porventura, a forma que a Alemanha terá que encontrar para os enfrentar e resolvê-los. Era isso mesmo. Os principais problemas estruturais que a Alemanha efetivamente enfrenta: a energia é mais cara e, portanto, uma vulnerabilidade maior a choques externos. Eu ouvi, já na vossa emissão, falar da Energiewende, portanto da transição energética e do erro estratégico colossal cometido pela chanceler Angela Merkel ao ter efetivamente tomado a decisão de encerrar as centrais nucleares e de transformar a economia energética da Alemanha. Colocando-se na mão dos russos, colocando-se claramente na mão do Nord Stream 2 e na mão dos russos. E é muito interessante que a primeira cimeira da NATO com Donald Trump, que eu assisti, eu era o embaixador junto da NATO, estava na sala. O momento em que Donald Trump acusa Merkel, na reunião de líderes, de estar no bolso de Vladimir Putin, justamente por causa das decisões que havia tomado em matéria energética. Portanto, este é um dos problemas estruturais que a Alemanha tem que resolver. Depois, a Alemanha tem uma excessiva burocracia e uma lentidão enorme nas decisões e licenciamentos. Nós, em Portugal, queixamo-nos sistematicamente do peso da burocracia, das demoras nos licenciamentos, mesmo em matéria de obras que são fundamentais para o serviço público. A Alemanha tem, na minha opinião, uma burocracia pesadíssima também. As infraestruturas alemãs têm que ser renovadas. As infraestruturas ferroviárias, apesar do comboio de alta velocidade, as infraestruturas energéticas e as infraestruturas digitais, sobretudo na Alemanha, estão claramente envelhecidas. E depois há o problema demográfico. Há falta de trabalhadores qualificados, apesar das tais vagas de migrantes. Há um envelhecimento demográfico claro, que não é exclusivo na Alemanha ou da Alemanha, perpassa por toda a Europa. O modelo industrial alemão é, como sabemos, muito dependente das exportações. A economia alemã vive fundamentalmente não só das pequenas e médias empresas, do chamado Mittelstand, mas nós sabemos que as pequenas e médias empresas alemãs seriam em Portugal grandes empresas. Mas apesar disso, todas elas estão focadas nas exportações. Por outro lado, há uma exposição muito significativa do mercado alemão ao mercado chinês, à concorrência industrial chinesa e às decisões comerciais norte-americanas. Enfim, tudo isso tem feito parte do contexto internacional do ponto de vista econômico que temos vivido. Depois, ao contrário daquilo que acontece, por exemplo, nos Estados Unidos, há na Alemanha um atraso significativo em tecnologias digitais, em inteligência artificial. Portanto, há setores de elevado crescimento e de elevado potencial que carecem de reformas estruturais na Alemanha. Depois há, obviamente, uma pressão muito grande sobre o estado social, sobre as pensões, sobre o sistema de saúde. O chanceler atual tem identificado esses problemas de uma forma muito clara. Não tem medo de falar, ao contrário do que acontece em Portugal, ao contrário do que faz o governo português, não tem medo de falar da imprescindibilidade da reforma do sistema de pensões. E depois, por último, eu diria que há uma grande dificuldade de adaptação da indústria automóvel alemã à mobilidade elétrica e ao novo contexto tecnológico. Apesar de tudo aquilo que tem feito, designadamente a Volkswagen, a Mercedes, a BMW, o que é certo é que há uma dificuldade de adaptação. Outros países têm tido um modelo de adaptação, uma rapidez de adaptação tecnológica da indústria automóvel muito mais significativa. Portanto, eu diria, para referir apenas a título de primeira conclusão sobre estes problemas que identificamos, o problema alemão não é a ausência de capital. Isso é fundamental perceber. Ao contrário de outros países onde há um déficit significativo de capital para investir, o problema alemão não é esse. Nem é sequer um problema de indústria, nem é um problema de conhecimento, porque há polos de conhecimento que são do nível mais elevado do mundo na Alemanha. O problema é a dificuldade em converter Esses recursos, capital, indústria e conhecimento, em decisões suficientemente rápidas. E o chanceler alemão tem pecado pela lentidão em pôr em marcha as necessárias reformas para enfrentar esses problemas estruturais que eu acabei de elencar. No seu livro "Diplomacia em Tempo de Troika", um capítulo que se chama "Vitórias Perdidas", refere muito a Alemanha de 2013, não é? E em que alguém que creio que até faleceu recentemente, que era um historiador alemão, Mikkel Thurmer, não devo estar a pronunciar bem o nome. E ele era alguém com quem falava muito, por aquilo que percebi, e que lhe terá dito que a Angela Merkel não é Helmut Kohl. Não sei se continuou a falar com ele nos anos seguintes, mas esta ideia da vitória perdida, esta ideia de que não foram aproveitadas estas vitórias, que, na verdade, tudo tinha ficado na mesma, não é? Apesar da vitória. E ao mesmo tempo, esta falta de ousadia, de dar um passo mais em frente, pode ter levado a este erosionar do centro político a que assistimos hoje? Eu não tenho dúvidas que o juízo que a história a médio e longo prazo fará, isto é um bocadinho presunçoso estar a dizer isto, porque ninguém é dono do juízo da história, como é evidente, mas para uma conversa na Rádio Observador, eu diria que tenho poucas dúvidas de que o juízo da história sobre a Angela Merkel não será um juízo positivo. E não será um juízo positivo justamente pela incapacidade da chanceler de prever as consequências da viragem energética, da transição energética, as consequências da imigração, designadamente por causa do conflito na Síria, e sobretudo, a ideia de que as reformas que tinham sido feitas no governo de Gerhard Schröder, que perdeu, de resto, as eleições por isso. Os políticos corajosos que fazem reformas, tendencialmente perdem as eleições. A única exceção, que eu evoco no meu livro, que fez o favor de mencionar, é Pedro Passos Coelho, que teve a coragem, a responsabilidade e o patriotismo de implementar as reformas e ganhou as eleições. Depois, enfim, houve o fenómeno da geringonça, mas o que é certo é que as eleições foram ganhas pela coligação Portugal à Frente, independentemente do sofrimento pelo qual os portugueses tinham passado durante o programa de ajustamento económico e financeiro. Merkel descurou a imprescindibilidade de prolongar, de continuar reformas muito significativas. Colocou-se, do ponto de vista energético, numa grande dependência em relação à Rússia e, por outro lado, permitiu que o fenómeno da imigração acabasse por ter as consequências políticas que hoje vemos na Alemanha. Eu julgo que iremos falar disso adiante, porque é muito importante perceber também quais são os problemas políticos. Agora, independentemente disso e das tais vitórias perdidas, há elementos positivos. E alguns desses elementos positivos são também uma herança que se deve à Angela Merkel. É preciso contrariar a narrativa excessivamente catastrofista. A Alemanha, apesar do erro da transição energética, apesar das consequências causadas por essa decisão de transição energética, continua a ser a maior economia e a maior base industrial da União Europeia. Do ponto de vista económico e industrial, a Alemanha tem uma capacidade muito superior à da França. Sim. As empresas alemãs têm uma dimensão mundial e têm um tecido extraordinário, como eu já referi, o tal conjunto das pequenas e médias empresas industriais. Depois, é fundamental para perceber bem a Alemanha, que as universidades alemãs, os centros tecnológicos, os institutos de investigação, são de primeiríssima qualidade mundial. Basta entrar na Universidade de Charité, em Berlim. Há 14 prêmios Nobel que saem dessa universidade. Portanto, há, de facto, do ponto de vista do conhecimento e da estratégia do conhecimento, uma enorme capacidade na Alemanha. E há uma administração sólida e uma elevada capacidade financeira, apesar da tal burocracia pesada que eu referi. A cultura econômica na Alemanha, que é uma coisa que eu diria que existe muito pouco ou quase nada em Portugal, valoriza a qualificação, valoriza a estabilidade. O ensino profissional na Alemanha, o chamado dual system, é uma coisa que nós em Portugal praticamente destruímos, também por razões ideológicas após o 25 de abril, que vai demorar muito tempo a reconstituir. Mais uma vez, durante o período da troika, durante o governo de Pedro Passos Coelho, quer Álvaro Santos Pereira, enquanto foi ministro da Economia, responsável por trabalho, quer Nuno Crato, como ministro da Educação, tentaram estabelecer pontos muito concretos, acordos muito importantes. Ursula von der Leyen, na altura, era a interlocutora de Álvaro Santos Pereira, porque ela era a ministra do Trabalho e da Segurança Social. E, portanto, falavam sobretudo do ensino técnico-profissional. Eu estive presente em muitas reuniões. Estive até presente numa reunião particularmente importante porque Estava a ter lugar uma reunião entre Álvaro Santos Pereira e Ursula von der Leyen, no momento em que no meu telefone vi que Paulo Portas se tinha demitido. Sim. Não se esquece um momento desses. Não, não me esqueço um momento desses e não mostrei o meu telemóvel ao ministro Álvaro Santos Pereira para não destruir a reunião. Mas depois quando saímos e Ursula von der Leyen fez questão de acompanhar Álvaro Santos Pereira até à porta do ministério, eu que vinha imediatamente atrás dos dois, puxei pela manga do casaco a Álvaro Santos Pereira, porque receei que pudesse haver jornalistas à porta, e disse-lhe: "Portas demitiu-se". Bom, eu não vou descrever a reação de Álvaro Santos Pereira. Calculamos. Mas calculem. Desculpe só interrompê-lo, mas acabando o seu raciocínio, e o seu livro é muito interessante nesse ponto, fala muito dessa cultura económica, dos contactos com as associações, o seu trabalho passava muitas vezes por isso. E agora, onde é que está e onde é que se arranja cultura política para lidar com a atual situação de uma Alemanha polarizada entre dois extremos? Muito bem. Eu diria que o que alimenta a fragmentação política na Alemanha é a fragilidade económica. Claro que aqui, na fragilidade económica, eu introduzo a dimensão da imigração, porque tem consequências também nesta matéria. Mas é sobretudo a fragilidade económica que alimenta a fragmentação política. Os recentes resultados regionais que reforçaram não só a AFD, mas também a esquerda radical, a extrema esquerda. Die Linke é preciso não esquecer, é bom que isto seja dito claramente em Portugal, é o partido herdeiro do Partido Comunista da RDA. Portanto, é um partido que desde sempre teve um cordão umbilical com a União Soviética, com Moscovo, e que não mudou significativamente desde essa época até agora. E é extraordinário que, por vezes, os comentadores, os analistas em Portugal atribuam as sombras mais negras, e com razão, com preocupação, à vitória da AFD e passem significativamente ao lado desta vitória altamente preocupante, altamente inquietante, perturbadora, do Die Linke em Berlim. Por outro lado, seria simplista explicar tudo pela economia. Sim. Eu reconheço que há igualmente uma crise de confiança na capacidade deste chanceler governar. Essa perceção de perda de controlo, e também perda de controlo sobre a imigração, é algo que se o chanceler alemão não emendar a mão rapidamente e de uma forma muito vigorosa, eu antevejo que ele poderá estar a prazo. Mas ele é chanceler há muito pouco tempo. Desde maio do ano passado. Ele é chanceler há muito pouco tempo, mas não tem sido um chanceler bem-sucedido neste período. É evidente que todo este processo demora. Eu também, se fosse analista alemão e se fosse político alemão ou fosse membro do Bundestag, procuraria fazer tudo para que este chanceler tivesse mais tempo. Mas o que é certo é que há diferenças persistentes entre o leste e o oeste na Alemanha. Sim. É preciso reconhecer que independentemente da extraordinária proeza que foi a reunificação, as diferenças estão lá. E essas diferenças também têm um impacto político significativo. Depois, as mudanças muito rápidas que têm acontecido do ponto de vista cultural, não só na Alemanha, mas um pouco por toda a Europa Ocidental e nos Estados Unidos também, criam uma insegurança cultural e social. E essa insegurança social e cultural também justifica o voto significativo na AFD. E há um desgaste natural dos partidos tradicionais. Eu diria que CDU, na Baviera a CSU, o SPD, têm desiludido os seus eleitorados. Não acontece apenas na Alemanha, é um risco que corremos designadamente em Portugal também. E noutros países, basta ver o que aconteceu ao Partido Socialista em França, que implosiu completamente. Há um desgaste dos partidos tradicionais. E a comunicação política nem sempre consegue explicar a necessidade de reformas. Explicar a necessidade de reformas é das tarefas mais complexas do ponto de vista político. E aqui, para regressar um pouco também a um comentário que eu ouvi antes de entrar neste debate. A Angela Merkel tinha uma linguagem muito franca quando falava da necessidade de reformas nos países do sul. E tinha uma linguagem franca e até em 15 segundos contar, ela contou-me uma vez que quando foi para a Alemanha, então de leste, porque o pai, pastor protestante, tinha a fantasia de que ia evangelizar os comunistas. Ela saiu de Hamburgo, foi com a família, mas deixou uma tia, e a tia escrevia-lhe todos os meses. E ela lia as cartas da tia e a tia dizia: "Coitadinha, eu percebo muito bem o que deves estar a passar e a sofrer". E ela dizia: "Claro que a minha tia não percebia coisa nenhuma, porque a minha tia vivia em Hamburgo, tinha centros comerciais, podia viver uma vida perfeitamente ocidental, de uma economia de mercado, não tinha nenhuma noção do que nós estávamos a passar na RDA". Eu nunca serei como a minha tia ao falar dos problemas dos países do sul. Isto é muito interessante. Portanto, a ideia de que ela devia ser mais empática, mais crida com os países do sul, que estavam efetivamente a sofrer, isso não fazia parte da idiossincrasia da Angela Merkel. Ela achava que os países do sul tinham tudo a ganhar com as reformas. E nesse aspecto, havia uma grande sintonia de pensamento entre ela e Pedro Passos Coelho. Aproveito só aqui rapidamente para dizer o seguinte: muitas vezes ouve-se e lê-se que Pedro Passos Coelho teria dito: "É preciso ir além da troika", na ideia de que as reformas estruturais tinham efetivamente que ser tão profundas e tão ambiciosas. Essa frase não é de Pedro Passos Coelho. É no fundo uma falsidade que tem sido muitas vezes repetida nas redes sociais, na comunicação social. Essa frase, de que as reformas estruturais em Portugal só poderiam ser bem-sucedidas se fôssemos para além da troika, é uma frase de Vítor Constâncio. É Vítor Constâncio, socialista, então vice-presidente do Banco Central Europeu, nas suas vestes de vice-presidente do Banco Central Europeu, que tem essa frase. Por último, eu diria que o problema político também não pode ignorar que há tensões dentro da coligação. Claro. E há tensões muito significativas dentro da coligação. Independentemente das coligações na Alemanha, ao contrário das coligações noutros países, como em Portugal, elas baseiam-se naquilo a que se chama um verdadeiro tratado de coligação. Tem centenas de páginas e que é cumprido escrupulosamente. Mas independentemente desse acordo de coligação, o que é certo é que há tensões políticas dentro da coligação. O que eu diria: os eleitores alemães não estão apenas a protestar contra um mau indicador económico. Estão, sobretudo, na minha opinião, a exprimir a sensação de que o Estado e os partidos deixaram de controlar a transformação indispensável. E, portanto, para combater a AFD politicamente, e é essencial combater a AFD, é essencial não normalizar as posições da AFD, mas uma barreira institucional por si só não é paliativo, não é substituto para respostas concretas aos problemas que alimentam o voto de protesto. E isto aplica-se também a Portugal. Senhor embaixador, temos dois minutos até às 11 da manhã. Muito bem. Perante tudo o que está a dizer, a Alemanha hoje ainda é um país influente na União Europeia e é influente em que áreas? A Alemanha é o país mais importante da União Europeia e indispensável para o processo de aprofundamento do projeto europeu. Sem a Alemanha, não há aprofundamento do projeto europeu. É evidente que a disciplina orçamental é indispensável. A insuficiência estratégica pode sair muito cara à Alemanha e à União Europeia. Deixe-me só para terminar, justamente nos dois minutos que refere, comparar França e Alemanha. O problema europeu não é apenas o enfraquecimento do motor alemão, é a fragilidade simultânea dos dois principais pilares do eixo franco-alemão. Eu estou, até do ponto de vista político e social, mais preocupado com o futuro imediato da França do que com o futuro da Alemanha. Veremos aquilo que acontece ou o que acontecerá nas próximas eleições. Agora, a Alemanha, a França e a Polônia, em matéria de segurança, são indispensáveis. É claro que os outros países têm o seu papel a desempenhar, a Itália, Espanha e Portugal, na energia, no Mediterrâneo, nas relações atlânticas, os países nórdicos e bálticos na inovação e na defesa, a Holanda e os estados do Benelux na competitividade, no mercado interno, mas sem o eixo franco-alemão, ou melhor dito, alemão-francês, não há possibilidade de o projeto de aprofundamento europeu poder prosseguir, poder vir a ser bem-sucedido. Senhor embaixador, agradeço-lhe. Muito obrigado por se ter juntado a nós hoje no Contra Corrente. Estamos a debater a atual situação política e econômica da Alemanha, o motor da Europa. Helena Ferro Gouveia, a Alemanha está a atravessar um dos seus momentos mais incertos. Eu ouvia com muita atenção o senhor embaixador, até porque foi embaixador no período em que eu vivi na Alemanha e, portanto, o diagnóstico aqui traçado é mais do que realista. A Alemanha continua a representar, a Helena no início deste programa falava em 3% da economia mundial, em termos europeus são 25%. Ou seja, é o maior país e é o país que maior influência tem na Europa. Houve várias fases críticas na história alemã e eu recordo-me do início dos anos 2000, quando foi reformado o mercado de trabalho com as célebres LeihartZ e que houve uma polêmica social enorme, mas já foi aqui dito, foi das poucas coisas boas que o chanceler Schröder fez, mas que de fato contribuiu para preparar a Alemanha para o que viria mais à frente, portanto, as crises econômicas e financeiras. Neste momento, há aqui uma conjugação de fatores. Há realmente esta fragilidade econômica por via das dependências energéticas e por via de decisões mal tomadas. Há esta questão de necessitar de reformar as suas infraestruturas, e eu fui consultar aqui os meus apontamentos, por exemplo, a Deutsche Bahn, que é a empresa que gere os comboios alemães, precisa até 2034 de €150 mil milhões para renovar carris, carruagens, estações. Portanto Quem conhece os comboios alemães, que eram conhecidos pela sua pontualidade, pela sua limpeza, neste momento não são. Aliás, a Deutsche Bahn é fruto de imensas anedotas na Alemanha e de incerteza. Quando alguém compra um bilhete da Deutsche Bahn, não sabe se vai ou se não vai. E isto, na Alemanha, tem um enorme peso. Por isso, depois quando pedem aos alemães: "Vamos ter que pagar mais impostos para o orçamento comunitário", não admira que o Gunther Krichbaum tenha dito. O Gunther Krichbaum é ministro de Estado para a Europa no MEK, portanto no MEK alemão, e é um político da CDU. E ele quando diz que Costa está desfasado da realidade, está, porque ele olha para dentro, olha para a Alemanha, a precisar de renovar as suas autoestradas. E autoestrada na Alemanha tem um cariz sagrado. A questão de não haver limites de velocidade, dos alemães se poderem movimentar, é algo que é estruturalmente alemão. E neste momento nós vemos autoestradas que parecem algumas estradas secundárias portuguesas. É absolutamente inadmissível e há aqui esta pressão. Depois esta questão da burocracia e lentidão é um facto. Eu recordo-me quando foi a Exposição Mundial 2000, já lá vai muito tempo. Hanover? Hanover, exatamente. Havia os pavilhões, e havia o pavilhão japonês que não tinha um único prego. Eles receberam um livro de instruções da autoridade que controla a segurança, que era uma coisa que tinha umas mil páginas de coisas que os japoneses tinham que alterar. Isso para falarmos aqui na burocracia, é um bocadinho anedótico, mas está aqui. Nós temos aqui esta fragilidade económica, a dificuldade de adaptação. Agora aquilo que a senhora embaixadora dizia é verdade, a Alemanha é muito resiliente, porque é uma sociedade que, além de ter uma dívida pública controlada, a questão do travão da dívida, de ter finanças em ordem, de ter uma economia que apesar de fragilizada continua a ser forte, é um país ou uma sociedade que assenta no conhecimento. A valorização que se dá ao conhecimento, seja ele académico, por via das universidades, seja a excelência que se continua a existir nas escolas, seja este sistema de ensino dual, porque para exercer uma profissão na Alemanha, imaginemos para se ser cabeleireiro, tem que se ter uma formação profissional e um diploma para se ser cabeleireiro. As profissões são valorizadas, e isto é muito importante. E depois há um conjunto de grandes empresas alemãs que continuam a ser de ponta naquela que é as suas áreas. Há sombras, mas há aqui a capacidade de luz. Agora a dificuldade está do ponto de vista político. Quando eu olho para as discussões agora em termos de Friedrich Merz e aquilo que está a ser discutido, a grande dificuldade de Friedrich Merz- Só para fazer aqui um parêntesis, porque não se trata só de saber gerir o país nos próximos anos, trata-se também de saber reformar o país, porque a Alemanha vai precisar de uma reforma profunda. Precisamente. A Alemanha enfrenta um inverno demográfico, como temos falado muitas vezes aqui, tal como Portugal. Aliás, há aqui um paralelismo. É, de resto, um padrão no mundo ocidental. Exatamente. E precisa de reformar o seu sistema de pensões, o Deutsche Rentenversicherung, precisa de ser reformado. Então, o chanceler tem aqui em cima da mesa uma reforma, a reforma da reforma antecipada aos 63 anos, com 35 anos de desconto, e uma reforma sem penalização com 45 anos de desconto. E depois reformar também o sistema de segurança social, os seguros de saúde, que na Alemanha é preciso ter um doutoramento para entender os seguros de saúde, porque eles são privados, públicos, há ali um mix muito complexo. E o que o chanceler quer fazer, porque precisa de o fazer, é reformar estes dois setores. Depois há outros tipos de reformas também, mas essas são as principais. E tem sido muito difícil: A, explicar a necessidade de reforma aos alemães; B, explicar a necessidade desta reforma aos seus parceiros de coligação, porque nós tendemos a ver no chefe de governo a figura que é incapaz de comunicar, de reformar, mas ele tem um parceiro de comunicação, que são os socialistas alemães, que neste momento, em vez de perceberem que têm que vir ao centro e que têm que contribuir para a reforma, se estão a deslocar à esquerda. À esquerda nós vemos o quê? Vemos o crescimento de partidos de esquerda e de esquerda radical. E portanto, o SPD está aqui a bloquear. Na Alemanha, sempre houve grandes coligações. Quando se fala em grandes coligações, é aquilo que em Portugal é o centrão, entre sociais-democratas e democratas cristãos, houve ali vários exemplos. Mas esta grande coligação, que nasceu por via das circunstâncias, porque Merz não conseguiu uma maioria simpática, não teve os seus parceiros de coligação naturais, que seriam os liberais, houve que criar aqui uma grande coligação. É diferente, porque o momento político é diferente e porque há uma polarização na sociedade. E por que há uma polarização na sociedade? Já olhámos aqui para 2011, já olhámos aqui para 2015, o fator imigração não pode, de todo, ser excluído. E eu venho acompanhando a questão da AfD e ando a denunciar o perigo que a AfD representa desde a sua fundação. Desculpe interromper, porque a AfD era um partido de uns liberais que estavam contra o resgate da Grécia, não é? Precisamente. A AfD nasce em 2013 com um grupo de professores universitários que eram contra o bailout da Grécia, portanto, eram partidos não necessariamente anti-Europa, mas anti-euro, sobretudo, porque há muita gente na Alemanha que continua a ver a cedência do marco alemão, que foi exigida pelos franceses para a reunificação alemã, lá está a importância de conhecer a história, e portanto, estavam contra o bailout da Grécia, porque foi a Alemanha que salvou o euro, apesar de haver muita gritaria nas ruas. Eu lembro do tempo da troika, que a Angela Merkel aparecia com o bigode Hitler, aquelas coisas. Aliás, quando não há argumentos, reduz-se tudo a Hitler, já sabemos isso. Foi a Alemanha que, e pela mão da senhora Merkel, que vai ser julgada muito seriamente pela história, mas que teve aqui esse mérito de impedir a implosão da União Europeia, que surgiu a AfD, e surgiu com um grupo realmente de professores liberais. Só que em 2015, logo a seguir, a AfD começou a radicalizar-se, porque perceberam, de facto, que a questão não era a imigração, porque já com Gerhard Schröder, nos anos 2000, se discutia se a Alemanha era um país de imigração ou não, e concluía-se que era um país de imigração. Mas estávamos a falar de uma imigração controlada, regulada, estávamos a falar de portugueses, de italianos, de franceses, não necessariamente europeia. A comunidade turca, desde os anos 50, por via dos acordos que foram feitos com a Turquia durante o milagre económico alemão, aliás, foi na altura em que foram os primeiros portugueses também, com contratos, perfeitamente integrada. Portanto, a questão não tinha a ver com ser europeia ou com qualquer tipo de religião. A questão tinha a ver com haver um influxo massivo e com características culturais que não são dissipiendas, portanto, diferente. E isto tudo pesa na sociedade, até porque é visível a olho nu. Quem vai para cidades como Berlim, por exemplo, hoje eu li que Lisboa tem 30% de estrangeiros. Isso é visível a olho nu Em Berlim, qualquer pessoa que andasse de olhos abertos percebia isso. E depois, há uma questão que nunca gosta de ser falada ou que se fala sempre com pinças, é a questão da ligação à segurança. Ora, havendo aqui um partido que cavalga isso, um partido com proximidade à Rússia, um partido que tem uma ideia ou uma visão de sociedade que é diferente, um partido que é contra os projetos europeus, explorou isto. E depois tivemos aqui a contrarreação. E temos aqui, por um lado, a incapacidade de reformar, por outro lado, esta fragilidade econômica e uma crise de habitação que está sempre presente, sobretudo na capital alemã, em Berlim, por via também deste influxo migratório. E nós temos que dizer as coisas como elas são. Eu acho que se queremos realmente manter aquilo que é o centro e os moderados, nós temos que fazer o diagnóstico e depois encontrar respostas. E eu olho pra Alemanha com muita preocupação, muita preocupação pela AfD, que eu já denunciei aqui, e muita preocupação com o Die Linke, que é algo que eu também tenho vindo a denunciar, porque este Die Linke e sobretudo o Die Linke berlinense, é preciso perceber que o Die Linke tem várias estruturas regionais e que difere consoante a zona do país, mas o Die Linke berlinense é particularmente radical, é aquilo a que eu chamaria uma ultraesquerda. É uma ultraesquerda não só pela sua gênese, que é um herdeiro do SED, o partido único da ex-RDA, depois ao que se juntou a Wasg, que era uma organização sindical que surgiu contra as reformas, precisamente, de Gerhard Schröder. Foi fundado por dois homens, que pra quem acompanha a política alemã conhece, o Gregor Gysi, que veio da ex-RDA, filho de um ministro informador não oficial da Stasi, uma pessoa mesmo de esquerda, e pelo Oskar Lafontaine, que começou por ser social-democrata, foi ministro das Finanças alemão com Schröder e depois radicalizou-se à esquerda e fundou este partido. Um partido marxista, claramente, com tudo aquilo que os partidos marxistas têm. Mas o que o Die Linke fez foi o apelar ao islamismo radical. E esse é um grande problema deste Die Linke. Na discussão que está a ser tida neste momento em Berlim, e até personagens históricos, quer do Die Linke, quer dos Verdes, quer do SPD, têm apelado a que não seja formado governo com este partido, é precisamente por na festa eleitoral terem estado elementos criminosos. A palavra é esta, criminosos na festa eleitoral, e a proximidade a grupos, que são grupos terroristas, neste caso o Hamas, que estiveram presentes, e a todos estes movimentos de libertação da Palestina, que são legítimos. Agora, há movimentos de libertação da Palestina, que são movimentos que são considerados na Alemanha como terroristas. E há aqui este casamento entre marxismo e islamismo, e depois todo o conjunto, eu dei-me ao trabalho, aliás, fui publicar nas minhas redes sociais, de ler as 336 páginas deste manifesto político e depois resumi-lo. E o que está lá é absolutamente aterrador, desta expropriação de propriedade. Merz veio dizer que na Alemanha com ele- Não, não vai. Exatamente, foi uma das primeiras coisas que ele disse. Vão aprovar agora em regime de urgência uma lei que proíbe as expropriações. Nós temos aqui um partido que só quer a prisão em casos absolutos. Sim, essa parte é uma abordagem quase daqueles grupos na América Latina, que é tirar as armas aos polícias. Exatamente. Substituir o trabalho da polícia por trabalho social. Social. Sim. É uma distopia, nem se fala numa utopia. O que é particularmente complicado, pergunto eu, no momento em que se vê na Europa, não apenas na Alemanha, mas vê-se na Holanda, coisas que nunca pensámos ver, ou na Bélgica, que é o crescimento das redes e da influência das redes de narcotráfico, que tornam a segurança um problema muito sério em cidades da Holanda, também na Alemanha. Aliás, um incidente que houve em agosto, que resultou até numa morte num liceu na Alemanha, tinha a ver com os tais clãs. São clãs árabes, claramente, que atiram granadas pra dentro de estabelecimentos, que matam, atiram na rua. Não era um incidente terrorista no sentido ideológico do termo, mas de conflitualidade dentro desses clãs. Mas isso é recente na Alemanha, enquanto que em países, por exemplo, como a Suécia, este problema é um problema já bastante mais antigo. E na Holanda. E na Holanda. A Alemanha sempre esteve defendida de alguma forma desse tipo de criminalidade. E neste momento, isto é um fenômeno novo. O que é que as pessoas fazem? Acabou-se o dinheiro. Será? Não, eles têm muito dinheiro. Eles têm um negócio a ter bastante- O problema alemão, do meu ponto de vista, é assim: tomáramos nós, como dizia o senhor embaixador, ter as dificuldades econômicas que a Alemanha tem e ter os problemas que a Alemanha tem. O problema da Alemanha é ter demasiados subsídios, que é uma das questões que o chanceler também está atento a cortar, é olhar para o sistema social e perceber que subsídios, que benesses pode cortar. Ou seja, cortar na despesa, porque mesmo tendo uma economia sólida, que não está a crescer, e porque de fato a indústria automóvel está a ser afetada, apesar de a Alemanha ter outras indústrias. A indústria automóvel é, se quisermos, a espinha dorsal da economia, mas tem outras indústrias, outras empresas muitíssimo competitivas e realmente de ponta nas suas áreas. Não falta dinheiro, mas há uma redistribuição deste dinheiro, que às vezes é de perguntar como é que isto acontece. E há aqui uma sensação de injustiça por parte dos cidadãos e, sobretudo, não serem ouvidos. E eu só queria dizer, a propósito do Die Linke, eu acho que é importante falarmos nisto, é a questão do antissemitismo E isto está muito presente. Eles têm discursos claramente antissemitas, que na Alemanha se definem por três Ds, que é os duplos standards, a deslegitimação do Estado de Israel e a demonização do Estado de Israel, atribuindo uma culpa coletiva aos judeus alemães, muitos deles que até são comunistas, portanto não tem nada a ver com o governo Netanyahu, pelos atos do governo de Israel. E aquilo a que se assistiu, a quem tem estado atento, não apenas às declarações políticas, mas aos comícios eleitorais, é aterrador, porque já não é uma crítica ao governo de Israel, é um apelo à morte de judeus na Alemanha. E nós temos o presidente do Comitê Central dos Judeus na Alemanha a dizer que a vida judaica não está segura, mas pior, temos o chanceler alemão a ter que admitir que não é seguro ser judeu em Berlim. E pra mim, se é muito preocupante o discurso neonazi que eu encontro no programa da AFD, também é muitíssimo preocupante encontrar o mesmo discurso neonazi no Die Linke. É aqui que nós estamos em termos de polarização. Agora, face a isto, há que ter a coragem de reagir e de reformar. Se os políticos, e se Merz vai ter força na coligação para o fazer, é a minha grande questão. Eu espero que sim. Mas o clima político está para responder que não. Ou não, Helena? Não sei, eu vou querer, se calhar é wishful thinking da minha parte. Vou querer acreditar que este homem, que eu acho que tem aqui um conjunto de valores, primeiro porque não precisa da política pra nada. Tem 70 anos, é milionário, fez a sua vida no setor privado e sempre quis ser chanceler porque achava que podia contribuir pro Estado, ou seja, queria servir o Estado e queria servir o seu país. Portanto, acredito que há aqui um conjunto intrínseco de valores naquilo que é a biografia de Merz, de querer realmente o melhor pra Alemanha. É um certo patriotismo que é saudável, que eu acho que às vezes nos falta em Portugal. O gostar do seu país não significa nacionalismos, nem significa Deutschland übe alles, não significa nada disso, mas um certo patriotismo, querer ver bem o seu país. Agora, resta saber se a sua coligação o interessa ou se vai continuar neste taticismo político que vai fazer com que se alimente de um lado a extrema-direita e do outro lado a extrema-esquerda, e o centro está em profunda erosão. Não prevejo nada de bom, caso este cenário prossiga, nem pra Alemanha e por contágio pra Europa, porque eu também estou muito preocupada com as eleições francesas. O que vai acontecer do ponto de vista calendário eleitoral nos próximos meses na Alemanha, Helena? Agora temos aqui alguma acalmia, temos que ver a formação do governo. Houve estas duas eleições. Três eleições. Duas regionais e uma municipal na Alemanha. Não é municipal, é pro estado. Berlim é uma cidade-estado, portanto são três estaduais. Agora, se eles conseguem formar governo, a questão é: consegue na Saxônia-Anhalt formar-se governo, consegue se em Mecklemburgo formar governo, consegue-se em Berlim formar governo, que coligações é que vão surgir aqui e que linhas vermelhas. Porque falámos sempre de uma linha vermelha à direita com a AFD. A CDU, que são os democratas cristãos, sempre tiveram uma linha vermelha à esquerda com o Die Linke. Agora, o que é que se vai fazer e o que é que os partidos da direita democrática, da esquerda democrática, vão fazer? E outra coisa que me preocupa que se não for- Há o risco de serem engolidos pelos extremos? Já estão a ser engolidos pelos extremos. Quando nós olhamos pra quem votou nestes três sufrágios, nós vemos, por um lado, a capacidade de mobilizar não eleitores, que é extraordinário. Eles conseguiram trazer pessoas que não votavam a votar. Isso eu acho extraordinário. Depois houve transferência de votos. Houve transferência de votos de eleitores socialistas, de eleitores dos Verdes para o Die Linke, e até, são 8 mil, mas são votos, da CDU pro Die Linke. E a mesma coisa pra extrema-direita. E houve aqui uma mobilização dos jovens que habitualmente não votam. Na Alemanha, nas eleições regionais, pode-se votar a partir dos 16 anos, o que eu considero, e vão me desculpar, extremamente perigoso, porque eu não acho que alguém com 16 anos tenha maturidade democrática para votar. E sobretudo, são miúdos que não conhecem o comunismo, não conhecem aquilo que foi viver sob o jugo comunista na ex-RDA, porque se romantiza o comunismo na Alemanha. O nazismo, eu acho que ninguém romantiza na Alemanha, nem se pode dizer isso aos alemães, eles estudam isto nas escolas, e bem, e vão a campos de concentração, e bem, e falam com os poucos testemunhos ainda vivos, os poucos sobreviventes ainda vivos do Holocausto. Portanto, este trabalho faz-se bem. O comunismo, não. O comunismo é romantizado na zona Nalé, nos filmes todos que existem sobre o Goodbye, Lenin! Mas não, o regime comunista da RDA era uma ditadura que retirava filhos às mães quando as mães eram oposicionistas, que tinha em frascos pedaços de roupa dos cidadãos pra que os cães pisteiros os pudessem encontrar, os pudessem perseguir. Nós temos os mortos do muro, portanto, ninguém morre ou arrisca a vida a tentar salvar o muro se estiver muito bem e muito satisfeito com o seu regime. Só que este lado da ditadura, da outra ditadura alemã, é muito romantizado. É o problema da memória histórica. Temos em linha um ouvinte, o Paulo Gonçalves, liga-nos de Lisboa, é arquivista. Parece que foi propósito aqui ligar a sua profissão com esta expressão da memória histórica. Bom dia, Paulo. Bom dia, como estão todos? Muitos parabéns ao vosso programa, que é uma espécie de serviço público, a rádio senhorita faz, e tem pessoas de grande qualidade, até é uma honra participar, também encontrar a Helena Ferro Gouveia, apesar de eu ter uma certa divergência de algumas posições dela sobre o atual Israel. A minha intervenção é que eu queria falar, porque estiveram a falar da senhora Kasner. O senhor embaixador esteve a falar da senhora Kasner e o principal problema é assim: as democracias acabam quando não há escrutínio dos políticos. Quem é a senhora Kasner? Porque a Helena Ferro Gouveia sabe de quem eu estou a falar. A senhora Merkel, que eu não estou enganado, ela em vez de acrescentar o nome do primeiro marido, mudou, ela deixou o nome de família e ficou com o nome do marido. E começam aí uma quantidade de perguntas: quem é que ela é? Nunca se fez o escrutínio dela. Ela foi chanceler durante quase duas décadas. Havia uma santificação das pessoas, que ela era a mami e mais não sei o quê. Eu acho que pode estar em cima da mesa que ela seja uma agente do Putin, porque aquilo que falaram hoje, que foi quase pela primeira vez, o que ela fez sobre as centrais nucleares não tem qualquer explicação lógica. Não só é contra toda a lógica, como na Alemanha não há. O problema de Fukushima, no Japão, foi um terremoto. Na Alemanha praticamente não há sismos. Aquilo foi um oportunismo dela. Eu acho que isso foi um dos primeiros passos do Putin para a preparação da guerra atual. Já agora, sobre a sua segunda dependência. Daqui Helena Matos. Não crê que a formação universitária dela a tenha feito recear? Eu sei que na Alemanha não há sismos e também tive exatamente a mesma dúvida na época. Um acidente numa central nuclear, creio, é das coisas que qualquer governante deve ter entre os seus maiores terrores. Portanto, não acha que ela se terá deixado impressionar muito por aquilo que estava a vir acontecer no Japão? Não, pois, mas ela era uma pessoa muito impressionável, também se impressionava com cães, etc. Deixe-me só explicar. A Angela Merkel é formada em química quântica. Tudo bem, eu não tenho dúvidas sobre isso, mas ela era uma política, não era uma química. Além disso, o nuclear na Alemanha estava muito controlado, não era como o nuclear noutros sítios que teve acidentes. Na Alemanha nunca houve uma central que tenha tido acidentes. E depois há uma coisa, a dependência do gás russo é uma coisa muito antiga. Começou ainda durante o período soviético. Quando o primeiro chanceler alemão fez uma ligação ao gás russo, o Ronald Reagan nessa época disse logo que isso era um perigo. E depois o problema quando ela se ligou ao gás russo, já a Rússia estava a utilizar o gás como uma arma contra a Ucrânia, cortando o fornecimento, aumentando o preço. Era uma coisa nítida. E depois há uma explicação. O senhor embaixador, que foi uma comunicação excelente, contou uma historinha que já repetiram de ela dizer que na RDA passava muito mal. Atenção, escrutínio. Já há pessoas a dizer que a família dela tinha privilégios, que a senhorita fosse tinha dois carros na RDA, etc. E também a decisão do pai dela não tem uma explicação lógica. E depois há outras coisas. Eu estou a falar sempre do escrutínio. Quando o escrutínio acaba numa democracia, aparecem os extremos, claro. Como em Portugal, por exemplo. Ela alegou nas memórias delas que quando estava no período de estudante, tinha participado no Partido Comunista, como era obrigatório, e depois pertencia a uma comissão cultural. Veio logo um contemporâneo dela dizer: "Não, ela pertenceu a uma comissão da Agitprop", que era nos partidos comunistas uma ação de propaganda e combate. Eu acho que o problema é este. Tem que ter agora esse contributo, porque acho que levou muito tempo. Quando saíram as memórias dela, a Rádio Observador fez um programa sobre ela e vocês iam ter logo atacado este problema. São 700 páginas de omissões e mentiras. É isso. E fica claro que o Paulo leu as todas, não foi? Leu as páginas todas. Não. Não, mas lembro-me perfeitamente que abordámos muito o facto. Estão a brincar. Sim. Lembro-me que abordámos muito a questão dela sabendo falar russo, poder ter tido ali um excesso de confiança nas suas competências ao dialogar com o Vladimir Putin. Muito obrigada pela sua lembrança. Obrigado, Paulo. Obrigado pelo vosso programa. Obrigado nós por ter ligado para participar no programa de hoje. Estamos a olhar para a Alemanha, que enfrenta vários desafios políticos, mas também desafios económicos. O António Nogueira Leite é economista, está connosco esta manhã. Bom dia, António. Bom dia. Bom dia. A Alemanha representa 24, 25% do PIB europeu, ainda tem capacidade para continuar a ser a economia da Europa? Como está, não tem. A Alemanha é um país que se deixou atrasar em termos das competências que precisava para um mundo onde o digital passou a ter um papel mais importante na propulsão do desenvolvimento do que propriamente a velha mecânica que esteve por trás de muitos dos sucessos industriais da Alemanha. A Alemanha continua a ter um potencial muito grande, mas é um país que tem uma burocracia significativa, que tem uma população que nalgumas matérias resiste à mudança. Basta pensar, por exemplo, que ainda hoje existe a utilização do fax, e não é anedótico. Existe de uma forma que não é generalizada, mas ainda é muito relevante. Desculpe interrompê-lo. Parece que alguns serviços oficiais, públicos, exigem de facto que as empresas, por exemplo, tenham fax. Exato. Sim. Mas a própria população, não é só a burocracia, a burocracia é um pouquinho o reflexo da Alemanha. Lembro-me de termos também a situação, por exemplo A dificuldade que foi a generalização dos cartões de crédito na Alemanha. Eu tenho uma história de estar com um tio meu, ele falava alemão, eu percebo pouco, entendo alguma coisa, e de ter pago numa bomba de gasolina, isto há 20 e tal anos, com um cartão de um banco alemão. E o senhor atrás dele, ainda daqueles alemães mais tradicionalistas, o outro perguntou, estávamos a afastar e mal se ouviu, que ele disse: "Eu pago com dinheiro verdadeiro" e pôs um molho de notas em cima do balcão. Isto não é um caso único, os dados agregados mostram isso. Os bancos alemães, por exemplo, do ponto de vista operacional, têm estado sempre nos últimos 20 anos atrasados relativamente aos bancos portugueses. Não estou a dizer que são melhores nem piores, estou a dizer que há uma resistência dos clientes à mudança e isso condiciona o grau de liberdade dos gestores de impor essa mesma mudança. Isso significa o quê, António Nogueira Leite, que o consumidor alemão ou o cliente dos bancos alemães é mais desconfiado em relação ao sistema bancário? Não. Eles não gostam de mudar as coisas. Adere bem à mudança. Se tivesse o rendimento dos alemães, estava em fila a comprar iPhone 18, quando ele sair, sei que já foi anunciado, não sei se já saiu. Já está em pré-venda. Desculpe. Já está em pré-venda. Eu tenho um iPhone 15 que usarei até ele deixar de funcionar. Mas de qualquer das maneiras, o que se passa aqui é que eu próprio, como português, esse certo encantamento que nós temos com a novidade, o alemão acaba por ser muito competente a utilizar a novidade, que se adere à novidade, tem uma menor probabilidade de ficar entusiasmado quando ela surge. Isso tem a ver com a psicologia coletiva, que é capaz de explicar, eu não sou dessa área, não vou entrar em explicações de café, mas de qualquer das maneiras, isso tem um reflexo na adaptação e na utilização de novas tecnologias. Esse não é o aspeto principal, parece-me. O que é mais grave é, por um lado, eles eram extraordinariamente bem-sucedidos no modelo anterior e portanto foram otimizando esse modelo. E são ainda hoje extraordinariamente competentes, porque muitas coisas que não são da economia digital continuam a ter uma importância enorme na nossa vida e o mercado é muito significativo. Agora, por um lado, alguma resistência também à mudança nas políticas econômicas. Por exemplo, é um pouquinho irônico, mas uma pessoa que é altamente criticável por outras razões, mas o chanceler Schröder foi o último grande reformador da Alemanha. A senhora Merkel, que era adorada pela direita reformadora em Portugal, não reformou nada. Basicamente, ela era uma espécie de Costa, ela resolvia imbróglios, arranjava consensos e arranjava equilíbrios. Agora, isto é uma forma de atuar que pode ser bem-sucedida durante bastante tempo, mas que deixa um legado. E esse legado é a necessidade de reformar, que o atual governo tem, porque depois os sociais-democratas que vieram a seguir também não estavam muito interessados, mas o atual governo tenta fazer com imensa dificuldade. Mesmo na própria CDU/CSU, onde não há um ímpeto reformista muito significativo. Esse é um ponto. O outro ponto é uma política energética absolutamente suicida. Não só pela dependência, que iria ser uma dependência ainda maior e total da Rússia, em que a senhora Merkel pensava, e muitas pessoas, porque ela não mandava sozinha, como é evidente, nem mandava contra a opinião de todos os outros, que enquanto os alemães fossem ricos, os russos poderiam ser uns bons amigos, nomeadamente o senhor Putin. Não vale a pena comentar, já se verificou que era uma falácia. Agora, o que se passa é que, por um lado, geraram uma enorme dependência dos combustíveis fósseis russos, em concreto do gás natural, e depois fizeram uma coisa que eu julgo que tem um grande apoio populacional, eu tenho muitos alunos alemães e às vezes falo com eles sobre isso fora das aulas, e eles ficam assim a olhar pra mim, que eu digo: "Como é que é possível um país inteligente e desenvolvido retirar de produção centrais nucleares que ainda estavam claramente dentro do seu período de vida útil, e ser forçado a reativar centrais a carvão para suprir as dificuldades?" Se o problema é a alteração climática, o nuclear não é inimigo da alteração climática, porque é neutro do ponto de vista, aliás, a própria União Europeia considera hoje o nuclear uma energia verde. E hoje em dia, o tempo passou, a ciência progrediu, a tecnologia também, e hoje em dia as centrais nucleares e a resolução dos problemas que elas põem, que são basicamente os resíduos que ficam do urânio que é utilizado no seu funcionamento, tem hoje soluções que não são definitivas, há um problema de resíduo, mas são soluções seguras. Sim, desculpe interromper, para que se perceba, Portugal tem ao seu lado a funcionar a central de Almaraz, que é muito anterior àquelas centrais que foram encerradas. Exatamente. E a central de Almaraz, segundo os últimos dados, irá funcionar pelo menos até 2030. É. A Alemanha tem uma economia muito diversificada, tem um setor industrial forte, setor de serviços associado ao setor industrial e uma população rica, é um mercado muito grande, nacional de 80 milhões de pessoas, mas havia uma dependência grande da indústria automóvel. Não só pelos construtores, mas por toda a cadeia de valor associada à indústria automóvel. E o que verificamos hoje é que a indústria automóvel alemã está numa situação de enorme debilidade, por razões próprias e por razões de enquadramento, causadas quer por Bruxelas, quer pelo próprio governo alemão, mas mais por Bruxelas. E Bruxelas não saber reagir ao fato de que os chineses colocam calmamente produtos na Europa que são altamente subsidiados pelo seu governo e não há capacidade de escrutinar adequadamente e tornar aquilo a que os ingleses chamam a level playing field, um espaço concorrencial verdadeiramente equilibrado e justo. Para além disso, houve problemas de natureza estratégica. A forma de gerir alemã de consenso, que não sei se sabem, mas o sistema alemão, por exemplo, na gestão das empresas, tem um conselho de gestão executivo que presta contas a um conselho de supervisão. Por lei, metade do conselho de supervisão são representantes dos trabalhadores. Isso tem a ver com a cultura, com a forma como o capitalismo se desenvolveu na Alemanha e na Áustria, não é uma escolha ideológica, mas é evidente que implica outra flexibilidade relativamente, por exemplo, ao modelo anglo-saxónico. Desculpe, António Nogueira Leite, é mais lento na decisão o modelo alemão? Muito mais lento na decisão, porque eles procuram o consenso. Não só o consenso com os vários stakeholders internos, nomeadamente os trabalhadores, os seus representantes, como também são parentes. É evidente que nós não estamos a falar em pessoas que olhem para a relação sindical como as pessoas da CGTP. Estamos a falar para pessoas que têm uma noção de jogo que não é de soma nula, quer dizer, os donos da empresa podem ganhar e eles também, eles querem uma partilha, entre aspas, justa desses ganhos. É uma visão completamente diferente, mais pragmática, e eu acho que no fim do dia, muito mais enriquecedora, até no plano monetário para os trabalhadores. Mas de qualquer das formas, o que se passa é que isso torna a reação um pouco mais lenta. E a multiplicação disso tudo num contexto mundial muito diferente, para além dos outros problemas que têm a ver com a integração de 1 milhão de sírios, mais uma população turca que nunca se integrou completamente. Há turcos que são muito mais alemães do que alguma vez se poderia imaginar que tivessem sequer origem turca. Mas o que se nota também é que algum trabalho político que agentes no terreno e de fora têm feito na Alemanha, tem feito com que alguma das novas gerações estejam menos integradas do que a geração inicial que era semianalfabeta, e estes não são. De facto a Alemanha tem também esse tipo de problemas, mas não era desses que eu estava a falar. Eu estava a falar basicamente de uma economia que precisa de reformas, e uma certa resistência à mudança por parte da população. Por outro lado, também um conjunto de escolhas políticas, quer em Berlim, quer em Bruxelas, que foram catastróficas e que tornaram a Alemanha, hoje, em algo que para ser, e é fundamental para a Europa, que possa ser novamente o grande motor económico, implica uma transformação de sucesso. E depois tem outra coisa, vamos pensar, por exemplo, Berlim. Berlim é um dos focos, agora falamos de Berlim por outras razões, mas Berlim é nos últimos 15 ou 20 anos, uma zona muito importante onde surgem novas ideias empresariais, novos negócios, novos conceitos. E tem alguma relevância no plano europeu, mas o que os alemães verificam é que os que têm realmente sucesso acabam por se deslocar para fora da Alemanha, muitos dos quais para os Estados Unidos. Que é mais tentador. E isso não é um problema só da Alemanha. É um problema europeu. Europeu. E é possível, António Nogueira Leite, a Europa crescer economicamente com uma Alemanha em crise? Ou seja, podemos descartar a Alemanha? É difícil. Não podemos. O que nós precisamos é que seja possível passar pelo caminho estreito De fazer reformas e elas produzirem. O governo alemão tem que ter aquilo a que os ingleses chamam quick wins. Tem que ter algumas reformas que produzam efeito positivo rapidamente para poder criar o momento dessas mesmas reformas. Porque a Alemanha é muito grande e o parceiro francês, que é a segunda maior economia, a economia não está tão mal, mas a França está com um problema de finanças públicas absolutamente gigantesco, e que não se vê como é que pode resolver, porque a sociedade francesa, nas suas diferentes áreas, inclusive no centro, o problema existe, mas não há uma solução que seja consensual, não há uma solução que seja viável. Aliás, eles nessa matéria entraram todos na zona do que eu chamo de pensamento mágico. Eles querem que o problema se resolva, mas não querem ter nenhum dos custos associados à sua resolução. E portanto, a Europa está com essas dificuldades econômicas nessas duas economias, que se podem agravar se à atual dificuldade econômica se juntar uma dificuldade política, nomeadamente relativamente à visão que um futuro governo na Alemanha possa ter, e em França também, relativamente ao processo europeu. Há uma coisa que em Portugal eu não vi ainda hoje na imprensa, vi isto num site de notícias alemão, em inglês. Hoje em dia até assim nós precisamos de confirmação mais tarde, mas aparentemente haverá uma carta de 13 chefes de Estado à Comissão Europeia ou ao Conselho Europeu, não me recordo exatamente qual é o destinatário, do qual a Alemanha faz parte, que foi aliás promovido pelo chanceler austríaco. Alemanha e Itália são nomeadamente países, a Dinamarca, que fazem parte dessa carta a dizer à Comissão Europeia que parem de produzir nova legislação durante um ano e revejam aquilo que fizeram entretanto. Mas para quem tem contato com Bruxelas, eu tenho, a pressão da máquina interna é absolutamente brutal sobre os comissários. Aqueles diretores gerais, aqueles quadros, aquela gente toda que lá está quer continuar a criar a maior burocracia da história humana. Claro, alimentar o status quo. É preciso que alguém dê um murro na mesa, isto faz parte de um simulacro de murro, a confirmar-se, digo eu mais uma vez. Mas mesmo que não fosse verdade, mesmo que não seja uma notícia totalmente confirmada, porque eu não vi a carta, ou não vi uma cópia da carta, o que é fato é que há na população desses países uma ideia clara de que os problemas têm a ver com Bruxelas. Aliás, Bruxelas até leva por tabela uma culpa maior do que aquela que efetivamente tem, mas tem. O grande problema é que somos dominados por uma burocracia, em larga medida, isto em Portugal vão me dizer que eu sou de extrema-direita, acho que é óbvio que não sou, mas há uma burocracia em Bruxelas que está em roda livre e a Comissão Europeia não tem mão sobre ela. E quais poderão ser as ondas de choque para a economia portuguesa de um agudizar da crise alemã, crise econômica e crise política, António Nogueira Leite? Para já, aquilo que os portugueses gostam tanto, que são os cheques passados entre aspas pela Europa, já percebemos que vão diminuir. Aliás, o puxão de orelhas ao doutor António Costa ao vivo pelo ministro alemão é um pouquinho inusitado, mas foi com palavras muito agrestes e portanto significa que esta ideia de que eles falam, falam, falam, mas nós vamos conseguir passar novamente um grande orçamento comunitário que vai distribuir dinheiro pela Europa fora, está posto fora de questão. Se isso é bom ou mau para Portugal, isso é outra questão. Mas eu acho que o equilíbrio vai ser certamente uma coisa diferente de mais do mesmo. Vai haver claramente menos. Depois, um outro aspecto que eu penso que também é muito relevante é que há alguns dados recentes que não são maus, nomeadamente em termos de produção. Se a economia alemã não conseguir voltar a ter o papel que teve, é evidente que a Europa como um todo não tem alternativa. Não há outro país com dimensão, capacidade e capital, não só financeiro, mas humano e tecnológico, que permita substituir o papel da Alemanha. Portanto, temos todos que esperar que a Alemanha melhore sob pena de todos ficarmos numa situação menos boa, não diria. A não ser que voltássemos a integrar o Reino Unido na União Europeia. Pois, mas eu acho que isso não vai acontecer. Não vai acontecer. Não vai acontecer e nós não devemos- Voltar para trás. Claro. E que Europa é esta que não tem o seu motor na Alemanha? Ou seja, tem ainda o seu motor, mas com alguns problemas de funcionamento, mas nós durante anos ouvimos falar do eixo Paris-Berlim. E agora? O problema é esse, e esse problema até se pode agravar do ponto de vista da Europa. Com as eleições em França no ano que vem. É o eixo Paris-Berlim Ser a dirigente da AFD e a senhora Le Pen. Ou o senhor Mélenchon, porque tinha de dizer que a campanha do senhor Mélenchon, já aqui referimos hoje, vai muito animada. Enfim, acho difícil, seria o fim da Europa, não haveria qualquer hipótese. E portanto, Portugal tem que se preparar para tudo. É evidente que ninguém vai querer discutir isto em Portugal e as pessoas que o tentarem pôr em cima da mesa vão ser etiquetadas como lunáticos e alucinados. Mas eu acho que como estratégia contingente devia ser abordada. Em qualquer país onde haja estratégia, ela deveria ser abordada. Para mim, o cenário central é a continuação da Europa com ajustamentos. E sobretudo, e isso também depende dos senhores políticos chefes de governo, perceberem que a ida para a Comissão Europeia não pode ser um prêmio de carreira política. As pessoas têm que ir para lá e mandar nos serviços da comissão, e não serem embaixadores dos serviços junto da população e junto dos governos nacionais, que é como tem sido nos últimos 20 anos. E por isso era muito importante que nos preparássemos para tudo e que entretanto tomássemos uma posição no sentido de ajudar a que se encontrem equilíbrios para que a Europa possa continuar, porque eu acho que para Portugal seria catastrófico uma saída da união monetária, um desmembramento do euro. Imaginemos ativos em escudos e passivos em euros. Deixe-me só precisar um ponto que há pouco abordou, o compromisso da Alemanha com os orçamentos comunitários. Disse que numa Alemanha em crise econômica, o cheque europeu diminuiria para países como Portugal. Isso significa que antevê que a Alemanha possa vir a tornar-se brevemente um contribuinte menos ativo do projeto europeu? Não, do ponto de vista de passar cheques para acabarem festas de inauguração de escola, certamente. Porque o caso que se tem falado é europeu, de acordo com as regras europeias. Sim. Exatamente. Porque foi financiado no âmbito do PRR. Exato, e o PRR próprio e as regras comunitárias exigem que haja divulgação e que se invista na divulgação. Portanto, tudo isto, perfeitamente. A Alemanha vai estar menos aberta para isso, mas não é só a Alemanha. Portanto, os países que são contribuintes líquidos vão ser menos contribuintes líquidos e os beneficiários líquidos vão ser menos beneficiários líquidos. Basicamente, é um orçamento mais pequeno. Esse era o exercício que era importante fazer. Eu acho que há dois pontos importantes, não só o relatório Draghi, como agora se criou um grupo onde está o senhor Draghi e várias pessoas que foram cooptadas pela Europa afora para ajudar a concretizar o plano Draghi. Era bom que isso desse certo. Depois tenho mixed feelings, porque, por exemplo, o representante português nesse grupo de sábios é o professor João Costa, o antigo ministro da Educação, que não me parece que seja uma pessoa particularmente virada para as reformas de que a Europa precisa. Ou então pode ser que esteja num processo de mudança de pensamento. Mas de qualquer das formas, há muita gente que percebe que é preciso fazer alguma coisa, porque mais do mesmo vai ter um triste destino na Europa. António Nogueira Leite, muito obrigado por ter aceitado o convite para participar no Contracorrente. Muito ao gosto foi nosso. António Nogueira Leite, economista. Temos poucos minutos até ao final do programa. Helena Ferro Gouveia, conhecendo a Alemanha como conhece, viveu lá 20 anos, diria que há um clima social e um clima político para a Alemanha arrepiar caminho, para enveredar as reformas que o país precisa? Eu sou uma otimista e assisti a várias crises na Alemanha ao longo destas duas décadas e continuo a acompanhar, apesar de ter regressado a Portugal, a atualidade, até porque a minha família vive na Alemanha e uma das minhas filhas vive precisamente em Berlim, portanto, é algo que acompanho de perto. Há um clima um pouco pesado, e isso sente-se. Quem lê a imprensa alemã percebe que há algum desânimo, mas também há aqui uma coisa que é muito alemã, é a resiliência. Nós falámos aqui na dimensão económica, financeira, no peso da Alemanha, mas há uma dimensão que me parece muito importante e tem sido menos falada, que é a dimensão democrática. A Alemanha tem uma democracia criada em 49, na sequência da Segunda Guerra Mundial, que é muitíssimo forte e os alemães, de uma maneira geral, têm uma ligação forte com aquilo que é o âmago da sua democracia e que a democracia tem que ser alimentada, é uma flor que tem que ser regada e tem que ser protegida destes extremos. Portanto, nós vemos realmente movimentos extremistas que têm estas explicações todas que já foram aqui dadas. Aliás, a questão do fax é muito engraçada, porque ainda se utiliza em 77% das empresas o fax. Já não é físico, é digital, mas isso depois tem uma explicação jurídica, porque os alemães gostam muito de segurança, não temos tempo aqui para isso e aquela questão do pagamento com cartão. Mas é engraçado, porque nós associamos a Alemanha ao modernismo e a um país muito moderno, mas depois tem exemplos de profundo anacronismo. Tem. É o fax um deles. É campeã mundial em termos de patentes, ou seja, continua a ser um país onde se inventa muito e se desenvolve muito do ponto de vista tecnológico. Tem essa dimensão, mas depois tem uma dimensão profundamente conservadora e tem uma relação muito De muito cuidado com o dinheiro. Na Alemanha diz, quando isto era o marco alemão, um alemão antes de gastar um marco vira-o duas vezes na mão. Porque isto é fruto da guerra, é a questão da psicologia social. Isto está tudo presente e tudo isto compõe a Alemanha. Mas acreditando na resiliência alemã, que também é uma característica muito alemã, a capacidade de enfrentar dificuldades. Tenho aqui algumas razões para otimismo e depois há estes aspectos todos que não devem ser descurados. Há que haver aqui este cuidado da democracia e de fazer reformas, mas continuo a acreditar no projeto alemão, porque o não acreditar no projeto alemão significaria a implosão da Europa tal como a conhecemos. E significaria voltarmos a uma Europa das nações, como alguns movimentos políticos querem, com todas as consequências que isso pode ter para quem conhece a história. Eu tenho só mais uma dúvida que gostaria de colocar aqui antes do final deste programa, que é: nós vivemos como um grande momento da história, e foi a história a acontecer diante dos nossos olhos, a reunificação alemã, com tudo o que aquilo representou. Mas estas eleições que tiveram lugar na Alemanha, colocaram aqui uma outra questão. A Alemanha, para lá das clivagens ideológicas e económicas, também poderá haver uma clivagem regional. Há clivagens regionais muito presentes. A reunificação é muito recente do ponto de vista histórico, e eu já o disse aqui e volto a repetir, enquanto que a Alemanha Ocidental fez o processo de desnazificação e entrou para um processo democrático, a Alemanha de Leste, ou os cinco estados da Alemanha, não o fez. Ou seja, passou de uma ditadura, de um regime tirânico como o regime nazi, para outra ditadura igualmente tirânica e com as mesmas características, que foi o regime comunista. E portanto, 30 anos de queda do muro em democracia é muito pouco. Exato. Há aqui uma nostalgia, porque no regime comunista havia aquilo que é estabilidade. Sim, pois é. As pessoas tinham um paizinho, que cuidava de tudo, era tudo programado. Nada funcionava, mas havia tudo programado, havia creches para os miúdos, havia escolas, havia habitação. Péssima, mas eram pequeninas coisas que existiam. E agora há aqui uma espécie de orfanato, que do ponto de vista sociológico pode ajudar a explicar, não é a única explicação, mas pode ajudar a explicar este divórcio entre as duas Alemanhas. Muito bem. Não temos mais tempo, Helena Matos, mas estamos de regresso amanhã para mais um "Contra-Corrente". Diz. Voltaremos ao assunto, parece. Voltaremos à Alemanha. Obrigado, Helena Ferro Gouveia. Obrigada pelo convite. Até uma próxima e até amanhã para um novo "Contra-Corrente".
Por que os EUA abriram a porta para a carne brasileira
Nos sete primeiros meses do ano, o abate de bovinos nos Estados Unidos caiu para o menor volume desde 2002. Mas o dado que devemos olhar com mais atenção é a participação de fêmeas no abate. Esse indicador recuou pelo quarto ano seguido e está em 48,5%. Isso é o produtor segurando matriz, é reconstrução de plantel em pleno curso. É bom para o consumidor norte-americano? É para quem pensa estrategicamente, considerando um prazo mais longo, em 2028, 2029. Mas para quem precisa de carne hoje, significa que essa escassez ainda tem mais alguns anos de permanência. O rebanho americano, em 2025, confirma o menor patamar dos últimos 75 anos: 86,2 milhões de cabeças. E, com isso, os estoques de carne também bateram a mínima histórica. O resultado chegou ao consumidor americano em forma de dor no bolso: carne moída a quase US$ 7 a libra-peso, praticamente empatada com o recorde de abril. No ano, o preço médio subiu 11%. Foi tentando conter essa pressão que Washington reabriu, ainda que de forma limitada, a importação de gado vivo mexicano em agosto — suspensa desde maio de 2025 por causa da mosca-varejeira ou “bicheira do novo mundo”. Ajuda, mas não resolve. Rebanho não se reconstrói em um trimestre. Nesse contexto de aperto real, o presidente Donald Trump assinou, em 26 de agosto, a proclamação que amplia em 300 mil toneladas o volume de aparas de carne bovina magra dentro da cota tarifária, entre setembro e novembro. O produto que pagaria 26,4% de tarifa passa a entrar, dentro desse volume extra, pagando os US$ 44 por tonelada da cota. Isso é uma diferença enorme de competitividade — para quem consegue ocupar o espaço. E aqui está o detalhe que eu considero destaque, e que muita gente está lendo rápido demais: as 300 mil toneladas foram todas destinadas à linha “Other Countries”. Não mexeram nas cotas de Austrália, Nova Zelândia, Argentina, Uruguai ou Japão. Não tocaram nos parceiros de livre comércio. Abriram espaço, especificamente, para o grupo em que o Brasil está — e no qual o Brasil é, disparado, o país com mais capacidade de resposta. Não é a primeira vez que o Brasil esbarra nesse teto, aliás. Em janeiro, em apenas seis dias, o País já tinha esgotado, com os demais concorrentes da categoria, as 52 mil toneladas anuais da cota “Other Countries”. Desde então, estávamos pagando a tarifa cheia para continuar vendendo. Ou seja: essa nova cota não cria um mercado que o Brasil desconhecia. Ela reduz, e muito, o custo de um mercado que já vínhamos ocupando com apetite crescente — 234 mil toneladas exportadas entre janeiro e julho, alta de 17% no ano, com a carne in natura crescendo quase 24%. O que muda de verdade é o perfil do produto. Nos quatro códigos tarifários específicos contemplados até o anúncio, o Brasil só havia exportado 1,89 mil toneladas até julho — pouquíssimo perto do que Austrália (159,9 mil toneladas) ou Nova Zelândia (98,2 mil) mandaram para lá no mesmo período. Nesse nicho específico das aparas magras, estávamos praticamente fora do jogo. Agora, com a barreira tarifária reduzida, isso pode — e eu acredito que vai — mudar rápido. Além disso, o valor médio pago pelos EUA nas aparas brasileiras está entre os mais baixos da lista de fornecedores, o que ajuda a explicar por que a competição por esse espaço extra tende a ser disputada por preço, como o próprio governo americano fará questão de monitorar. Com cerca de 50 plantas já habilitadas para exportar aos Estados Unidos, o Brasil tem estrutura de sobra para reagir com velocidade.
Bitcoin tem leve queda apesar do 5º pregão seguido de entrada de capital nos ETFs
O bitcoin opera em queda nesta quinta-feira, 24, conforme os investidores antecipam mais aumentos de juros do Federal Reserve (Fed) nos Estados Unidos diante do avanço dos preços do petróleo. Esse desempenho negativo ocorre apesar dos fundos negociados em bolsa (ETFs, na sigla em inglês) de bitcoin à vista terem registrado seu quinto pregão consecutivo de entrada de capital. O fluxo de dinheiro acumulado nesses pregões chegou a US$ 2,6 bilhões em benefício dos fundos de BTC nos EUA. Às 11h19 (horário de Brasília) o bitcoin cai 0,2% em um período de 24 horas, cotado a US$ 84.273. Pedro Fontes, analista de Research do Mercado Bitcoin (MB), afirma que, depois do avanço recente do bitcoin de US$ 75 mil para US$ 87 mil, uma correção como a que a criptomoeda enfrenta agora é natural. "O ponto mais importante agora é preservar os US$ 82 mil, antiga resistência da lateralização que precisa se confirmar como suporte", argumenta, usando análise técnica. Gráfico do bitcoin em 24 de setembro de 2026 Petróleo e juros americanos pressionam o bitcoin Um ponto a ser observado é se o bitcoin continuará a atrair demanda caso os juros dos EUA continuem tão elevados como atualmente. "O rendimento dos títulos americanos de 10 anos chegou a cerca de 5,15%, maior nível desde 2007, enquanto o de 30 anos alcançou 5,44%, maior patamar desde 2004", destaca o analista do MB. Fontes explica que o crescimento forte da economia dos EUA, somado à pressão do petróleo sobre a inflação, faz com que o mercado enxergue uma maior probabilidade de nova alta dos juros na reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) em outubro. "Para o bitcoin, juros longos mais elevados representam um obstáculo porque aumentam a atratividade dos títulos americanos e reduzem o incentivo para assumir risco em ativos mais voláteis." ETFs em 5º pregão positivo Ontem, foi registrado um saldo líquido positivo de US$ 346,9 milhões nos ETFs de bitcoin à vista dos EUA. Foi o quinto pregão consecutivo com entrada de capital nesse tipo de fundo. Os dois maiores alvos do fluxo comprador foram o IBIT, da gestora BlackRock, com US$ 166,3 milhões de excesso de compras de cotas em relação às vendas; e o FBTC, da Fidelity, com US$ 143,2 milhões. Nos ETFs da criptomoeda ether, por sua vez, o saldo foi positivo em US$ 104,5 milhões. Esse foi o quarto pregão consecutivo de entrada de recursos. Entre os indicadores, o índice Fear & Greed (medo e ganância, na tradução literal) das criptomoedas caiu dos 75 para os 72 pontos. Essa região indica que o sentimento predominante no mercado cripto é o de “ganância”. O Fear & Greed usa informações como momentum de preços, volatilidade e posições predominantes no mercado de derivativos para criar um score que vai de 0 a 100 pontos. Quanto mais próximo de zero maior é o medo dos investidores, ao passo que valores perto de 100 indicam predominância do otimismo e apetite por risco. Siga o Future of Money nas redes sociais: Instagram | X | YouTube | Tik Tok
Perguntas Frequentes sobre VGIP11
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