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e o que isso revela sobre a forma com que o governo Putin enxerga o Brasil
Como a imprensa russa vê a eleição brasileira - e o que isso revela sobre a forma com que o governo Putin enxerga o Brasil Crédito, Getty Images Legenda da foto, Brasil é visto como parceiro comercial da Rússia que poderia possivelmente ajudar a contornar sanções internacionais Author, Role, Da BBC News Brasil em Londres Published Há 10 minutos Tempo de leitura: 12 min Um importante aliado do Sul Global em oposição às potências ocidentais, um possível parceiro econômico para contornar sanções relacionadas à guerra da Ucrânia e um importante mercado para exportações russas. É assim que o Brasil vem sendo retratado em coberturas na imprensa russa — nas vésperas da eleição que será realizada em primeiro turno no próximo domingo (4/10). Para o analista de Mídia da Rússia da BBC Monitoring, o jornalista Vitaly Shevchenko, a eleição brasileira vem ganhando pouco destaque na imprensa russa. Segundo ele, até o momento, o pleito não foi notícia em nenhum grande telejornal do país. A grande maioria dos russos se informa pela televisão. A BBC Monitoring é uma divisão especializada da BBC que monitora, traduz e analisa mais de 3 mil veículos em mais de 150 países e 100 línguas. Shevchenko monitora a mídia russa e produz relatórios de análise. Na avaliação de Shevchenko, o fato de a imprensa russa ser amplamente controlada pelo Kremlin e de haver pouca cobertura sobre a eleição brasileira indica que o governo russo não está interessado em se manifestar sobre o pleito. "Eu imagino que existam departamentos nas entranhas do Ministério das Relações Exteriores, da inteligência externa ou algo do gênero, preparando relatórios sobre qual candidato traria mais benefícios à Rússia", disse Shevchenko à BBC News Brasil. "A ausência de ampla repercussão na mídia sobre as eleições brasileiras sinaliza apenas uma coisa: o Kremlin não tem interesse em que o público, dentro e fora da Rússia, tome conhecimento da sua visão sobre o pleito." "Mas isso não significa que eles não tenham opiniões." A cobertura da imprensa russa está voltada na sua maioria para o conflito na Ucrânia — e o fato de o Brasil ter pouco envolvimento com a guerra contribui para o pouco espaço dado ao pleito brasileiro na imprensa russa. Mas o analista da BBC Monitoring afirma que, apesar disso, o Brasil ocupa uma posição dentro da política internacional de Vladimir Putin. "O Brasil é importante por causa do Brics. E, há anos — talvez décadas —, Putin vem tentando promover a ideia de que a antiga ordem mundial, dominada pelo que a máquina de mídia do Kremlin gosta de chamar de 'anglo-saxões', chegou ao fim", diz Shevchenko. "O que a está substituindo é o que eles gostam de chamar de Sul Global — alianças como o Brics, do qual o Brasil é membro." Famil Ismailov, editor da BBC News Russia (o serviço de notícias em russo da BBC), diz que analistas russo vêem a corrida eleitoral brasileira como muito apertada e não indicam um favorito — mas que qualquer que seja o vencedor, provavelmente não haverá grandes mudanças nas relações entre Brasil e Rússia. "O Brasil precisa dos fertilizantes e do diesel russos, e a Rússia precisa da carne, da soja e do café brasileiros. Não houve nenhum apoio visível a nenhum dos dois candidatos por parte das autoridades russas. Seja quem for o próximo presidente, o Kremlin parece estar satisfeito", diz Ismailov. Crédito, Getty Images Legenda da foto, Putin defende que a velha ordem mundial será substituída por uma nova, que incluirá o Sul Global e os Brics Ainda assim, diferentes jornais — todos ligados de alguma forma ao Kremlin, já que a Rússia é um dos países com menor liberdade de imprensa do mundo (veja mais abaixo) — vêm noticiando alguns aspectos da eleição brasileira recentemente. O jornal financeiro Vedomosti cita analistas que dizem que a Rússia "se sentirá confortável" interagindo tanto com Luiz Inácio Lula da Silva (PT) como Flávio Bolsonaro (PL) — os dois candidatos que lideram as intenções de voto, como mostra o Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil. O jornal sugere, no entanto, que a Rússia estaria "um pouco mais confortável" com Lula, dado que Flávio Bolsonaro possui maior ligação com Washington e pode vir a afastar o Brasil dos Brics. O jornal oficial do Kremlin, o Rossiyskaya Gazeta, afirma que as eleições estão bastante indefinidas e provavelmente serão decididas no segundo turno. Uma reportagem afirma que tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro foram afetados pelo escândalo do Banco Master — e que ambos representam propostas muito distintas para o futuro da economia brasileira. Já o jornal Izvestia, ligado a aliados do presidente Vladimir Putin, afirma que uma vitória de Lula poderia facilitar um projeto de aumentar as transações comerciais entre Brasil e Rússia nas moedas nacionais (real e rublo) — algo que potencialmente ajudaria Moscou a contornar sanções ocidentais. Confira abaixo como a imprensa russa está cobrindo o pleito. Ajuda do Brasil para contornar sanções Uma longa reportagem no sábado (26/09) do jornal Izvestia — que é controlado por aliados do presidente Vladimir Putin — destaca a importância da eleição brasileira para os interesses econômicos russos, em um momento em que o país sofre sanções pesadas do Ocidente por causa da invasão da Ucrânia. O Izvestia noticiou que o Brasil e Rússia querem expandir o seu comércio em suas moedas (real e rublo), hoje limitado a apenas 10% das transações. Segundo o Izvestia, quem manifestou interesse nessa expansão foi o embaixador brasileiro na Rússia, Sergio Rodrigues dos Santos. "A ideia de expandir o comércio em moedas nacionais parece uma continuação lógica da atual política econômica da Rússia e do Brasil: ambos os lados querem tornar os pagamentos mais baratos, mais estáveis e menos dependentes da infraestrutura cambial externa", afirma a reportagem do Izvestia. O objetivo seria favorecer as trocas de produtos agrícolas entre os dois países. A Rússia é o maior fornecedor de fertilizantes minerais ao Brasil. Segundo a reportagem, a Rússia tem interesse de aumentar transações em rublos e reais para contornar sanções internacionais que o país sofre por causa da guerra na Ucrânia. E esse modelo já estaria em funcionamento entre a Rússia e outros países dos Brics, como China e Índia. "A transição para moedas nacionais ajuda a Rússia a proteger seu comércio das sanções ocidentais: esses pagamentos são diretos e não podem ser bloqueados por bancos americanos ou europeus", diz a reportagem. "O abandono do dólar e do euro permite que as transações contornem o sistema SWIFT e os bancos correspondentes americanos, eliminando o risco de congelamento de fundos. Esse modelo já está funcionando com grande sucesso com outros parceiros dos Brics: as liquidações com a China foram quase totalmente (99%) convertidas para rublos e yuans, enquanto a participação do dólar e do euro no comércio com a Índia diminuiu drasticamente." O obstáculo para transações nas moedas nacionais é que os exportadores russos receberiam pagamentos em reais — e não teriam onde gastar a moeda brasileira. "Esse problema pode ser resolvido utilizando os planos que a Rússia já elaborou com a Índia. A Rússia poderia investir seu excedente de reais diretamente no Brasil — por exemplo, em logística portuária local ou na agricultura. Outra opção é expandir as compras: o país é conhecido não apenas pela soja, mas também por sua avançada indústria de engenharia mecânica, incluindo a produção de aeronaves Embraer e autopeças", afirma o jornal russo. "Por fim, a moeda brasileira acumulada poderia ser usada para pagar países terceiros (por exemplo, China ou Emirados Árabes Unidos), que têm grandes projetos na América Latina e necessitam de reais." Crédito, Reprodução Legenda da foto, Reportagem do jornal Izvestia destaca: "Brasil pretende expandir o comércio em moedas nacionais com a Rússia" O futuro desse projeto de uso de reais e rublos em transações depende também das eleições brasileiras, segundo o jornal russo. "O atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, defende o fortalecimento dos BRICS, a cooperação com os países do Sul Global e a transição para moedas nacionais. Seu principal adversário, o senador Flávio Bolsonaro, por outro lado, está focado na reaproximação com os Estados Unidos", afirma a reportagem. O jornal destaca uma declaração dada por Flávio Bolsonaro em junho de que, se for eleito, vai reavaliar "no seu primeiro dia na cadeira de presidente" se o Brasil deve ficar nos BRICS — "um bloco que é muito ideológico, usado para provocar os EUA". No entanto, o programa de governo do candidato do PL não faz menção ao bloco. "Uma possível mudança de poder em Brasília poderia congelar completamente as negociações sobre a transição para o rublo e o real", afirma o Izvestia. "Mesmo que o Brasil reduza seu interesse no BRICS após as eleições, a tendência de desdolarização do bloco global continuará. Rússia, China e Índia, que respondem pela maior parte do comércio intrabloco, permanecem os principais motores econômicos desse processo." Vorcaro: 'trunfo e problema' para Lula e Flávio Bolsonaro O jornal Rossiyskaya Gazeta — jornal oficial do Kremlin — destacou que as eleições estão bastante acirradas no Brasil e que ainda não se sabe "para onde afinal penderá o pêndulo do humor do eleitorado brasileiro". "Os dados mais recentes das pesquisas de opinião mostram uma situação praticamente de empate técnico entre os candidatos", diz o jornal russo. A reportagem destaca que até recentemente Lula vinha liderando as pesquisas de opinião, sobretudo após a divulgação do escândalo Dark Horse em maio, que afetou a intenção de voto em Flávio Bolsonaro. "Parecia que tudo corria da melhor forma possível para Lula", diz o Rossiyskaya Gazeta. Mas então, segundo o jornal, os desdobramentos do escândalo do Banco Master passaram a afetar também o presidente — primeiro com a citação do líder do governo no Senado, Jacques Wagner, e depois com as menções ao ministro do STF Alexandre de Moraes no caso. O jornal destaca que Alexandre de Moraes é visto como um antagonista aos Bolsonaro — e que seu desgaste acaba afetando também a intenção de voto em Lula. O jornal compara o banqueiro Daniel Vorcaro, do Master, a Ostap Bender, um trapaceiro fictício de livros da era soviética, famoso por golpes elaborados e por seu carisma. "No fim, ele [Vorcaro] acabou se tornando simultaneamente um trunfo e um problema tanto para Lula quanto para Bolsonaro. De qualquer modo, até o momento, Flávio alcançou o adversário e, segundo algumas pesquisas, até o ultrapassou em um provável segundo turno, cuja realização parece cada vez mais provável." Segundo os dados do Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil, Flávio aparece à frente de Lula em um eventual segundo turno. Crédito, Reprodução/PF Legenda da foto, O jornal oficial Rossiyskaya Gazeta afirma que Daniel Vorcaro é um "trunfo e um problema" tanto para Lula como para Flávio Bolsonaro O Rossiyskaya Gazeta afirma que Lula e Flávio Bolsonaro propõem modelos econômicos bastante distintos à população. Sobre Lula, o jornal diz que ele "aposta na manutenção do atual arcabouço fiscal combinada com o aumento dos investimentos públicos, projetos de infraestrutura, política industrial, programas sociais e novos aumentos do salário mínimo". "Para conquistar votos adicionais, em setembro ele adotou uma medida social de grande impacto: anunciou a elevação do valor mínimo do Bolsa Família de R$ 600 para R$ 691 por mês, um aumento de aproximadamente 15%. Além disso, o presidente apoia o fim da jornada de seis dias de trabalho com apenas um dia de descanso, defendendo uma semana de trabalho mais curta." Sobre Flávio Bolsonaro, o Rossiyskaya Gazeta diz que ele "propõe reduzir os gastos com a máquina pública, criar um novo teto de gastos mais restritivo e retomar a privatização de empresas estatais". "O candidato defende a diminuição da carga tributária, especialmente sobre o setor de energia, e promete endurecer significativamente o combate ao crime organizado e ao tráfico de drogas", diz o texto. Rússia 'mais confortável' com Lula Uma longa reportagem do jornal Vedomosti publicada em julho afirma que "a eleição presidencial brasileira está se tornando um ponto de convergência para os interesses de outros países" e que a Rússia "está um pouco mais confortável com o atual presidente do país". O Vedomosti foi fundado nos anos 1990 por grupos de mídia ocidentais — incluindo participação do grupo Dow Jones, que publica o americano Wall Street Journal — e já foi uma das publicações independentes mais influentes sobre economia russa, mas em 2020 acabou vendido a aliados de Vladimir Putin. A reportagem ouve analistas de consultorias políticas. Um dos analistas afirma que "qualquer um dos dois candidatos que se torne presidente, a Rússia se sentirá confortável interagindo com ele". Já outro aponta que, caso Bolsonaro vença, "devemos esperar um endurecimento da retórica em relação à Rússia e à China". "Ao que tudo indica, embora Flávio Bolsonaro mantenha relações econômicas com Moscou e Pequim, retórica e ideologicamente ele se inclinará cada vez mais para Washington do que seu pai", afirma a reportagem do Vedomosti. "Nesse contexto, Flávio Bolsonaro poderá aumentar a pressão sobre os instrumentos tradicionais de soft power da China, como os Institutos Confúcio no Brasil. Além disso, Flávio Bolsonaro será menos ativo na cooperação com o Brics — uma continuação lógica da abordagem de seu pai." Crédito, Reprodução Instagram/Eduardo Bolsonaro Legenda da foto, Jornal Vedomosti acredita que Flávio Bolsonaro se inclinaria mais na direção de Washington do que de Moscou e Pequim, se fosse eleito Brasil frustra nova Doutrina Monroe, diz jornal comunista Um dos jornais que dedicou espaço maior à eleição brasileira foi o Pravda, lendária publicação que já foi a mais importante do país na era da União Soviética. O jornal ainda existe e é ligado ao Partido Comunista da Rússia — no entanto, é pouco lido e sem influência no país, segundo analistas de mídia. O Pravda afirma que "o Brasil está frustrando os objetivos dos EUA de implementar integralmente a nova versão da Doutrina Monroe". "As eleições de outubro estão sendo usadas para restaurar a complacência política. Ameaças, chantagens e manipulação estão sendo empregadas", diz o jornal. "Muita coisa foi feita desde o retorno dos republicanos [à Casa Branca]. Fantoches da Casa Branca chegaram ao poder no Chile, na Colômbia, no Peru e em Honduras. Trump, cinicamente (e, infelizmente, não sem razão), chama a Venezuela de 'o 51º estado dos EUA'. Cuba definha sob o peso de um bloqueio, sem apoio externo efetivo." "No entanto, os planos mais ousados de Washington não se realizarão enquanto o Brasil permanecer fora de sua influência. O país, que representa um terço da população da América Latina e 43% do território da região, segue uma política independente. Isso basta para colocá-lo na lista de inimigos dos EUA." O Pravda diz que o governo de Lula "não precisa recorrer a discursos de ódio e mentiras" e que "em menos de quatro anos, mais de 28 milhões de pessoas saíram da pobreza". Já sobre o candidato do PL, a publicação comunista diz que "todas as forças da reação, tanto interna quanto internacional, estão sendo mobilizadas na luta pela vitória de Flávio Bolsonaro" e que "a direita tem pouco a mostrar em termos de resultados". "Sua plataforma se baseia em clichês sobre o combate ao crime", afirma o Pravda. Rússia e liberdade de imprensa A Rússia é o 9º pior colocado em um ranking de 180 países sobre liberdade de imprensa no mundo, publicado pela organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF). O país está a frente de países como Afeganistão, Arábia Saudita, Irã, China e Coreia do Norte — mas atrás de Cuba, Venezuela e Iraque. Nesse ranking, que é liderado pela Noruega, o Brasil ocupa a 52ª posição e os EUA, a 64ª. A RSF destaca que a liberdade de imprensa se deteriorou na Rússia depois da invasão da Ucrânia em 2022 — com quase a totalidade dos órgãos independentes hoje banidos, bloqueados ou declarados "agentes estrangeiros" (o que impõe restrições burocráticas a empresas) ou "organizações indesejadas" (o que criminaliza os veículos). Todos os canais de TV independentes de propriedade privada são banidos, com exceção dos canais de entretenimento a cabo. Muitos veículos de mídia ocidentais — como BBC, Euronews e France 24 e BBC — não estão mais acessíveis no país. O órgão regulador de mídia russa, Roskomnadzor, censurou a maioria dos sites de notícias independentes: os mais populares, como Meduza e TV Rain, foram declarados "organizações indesejáveis". Segundo a RSF, quem cita esses veículos pode ser processado no país. "Os demais veículos de mídia pertencem ao Estado ou a aliados do Kremlin. Seus funcionários devem seguir ordens do gabinete presidencial sobre assuntos a serem evitados e praticar uma rigorosa autocensura. As estações de rádio estão na mesma situação", afirma relatório da RSF. Jornalistas têm sido cada vez mais indiciados por "extremismo" ou por "compactuar com o terrorismo", segundo a organização. A RSF diz que o governo russo usa penas severas, multas, detenções de curta duração e até mesmo tortura para intimidar jornalistas. A organização afirma que nem mesmo jornalistas russos no exílio estão seguros.
Mercados emergentes superam desenvolvidos com agravamento da venda de títulos
Londres | Financial Times Os mercados emergentes estão resistindo melhor à onda global de vendas no mercado de títulos do que seus pares desenvolvidos, enquanto investidores apostam que muitos países estão agora menos vulneráveis ao risco de que juros mais altos nos Estados Unidos atraiam capital para fora de suas economias. Anos de reformas fiscais difíceis, o fortalecimento de bancos centrais e ministérios da Fazenda e a disposição de combater a inflação antecipadamente, por meio da elevação dos juros, deixaram muitos países em desenvolvimento mais preparados para enfrentar a alta dos rendimentos dos títulos e a valorização do dólar, fatores que no passado poderiam ter provocado uma fuga de capitais dos mercados emergentes. Mercados emergentes superam desenvolvidos em meio à pressão sobre títulos - Gabriel Cabral/Folhapress "Basicamente, [os mercados emergentes estão] muito mais resilientes do que você imaginaria", disse Werner Gey van Pittius, co-diretor de investimentos para renda fixa da Ninety One. "Se eu tivesse dito no início do ano que os treasuries dos EUA subiriam 110 pontos-base, você teria dito que os emergentes iriam explodir. E isso não aconteceu." Os rendimentos dos treasuries americanos de 10 anos subiram de 4,8% para 5,3% no último mês. Na África do Sul, no Chile e em outras grandes economias em desenvolvimento, porém, os rendimentos dos títulos soberanos subiram muito menos e, em alguns casos, como no Brasil, chegaram a cair. O movimento reflete uma divergência significativa entre os mercados de títulos emergentes e desenvolvidos nos últimos anos. Os rendimentos dos títulos sobem quando seus preços caem. "A disciplina fiscal foi, provavelmente, mais forte nos mercados emergentes. Eles têm sido bastante eficazes em aumentar a credibilidade institucional. A forma como lidaram com a inflação depois da Covid deu segurança aos investidores", disse Eva Sun-Wai, gestora de portfólio da M&G. Títulos soberanos de mercados emergentes denominados em moeda local tiveram alta de 18% no ano passado e acumulavam avanço de 3,5% neste ano até o fim de agosto, segundo um índice de referência do JPMorgan. Folha Mercado Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes. Carregando... A onda global de vendas em setembro, porém, deixou o índice estável no acumulado do ano. Ainda assim, o desempenho representa uma vantagem significativa sobre os títulos de mercados desenvolvidos, que acumulavam queda de 4,5% no ano, segundo um índice de referência da Bloomberg. Muitos investidores afirmam que a continuidade das reformas nos mercados emergentes e a força subjacente da economia global estão protegendo vários países de uma onda de vendas ainda maior neste ano. "Dado o choque, tenho de dizer que [os emergentes] estão indo muito bem", afirmou Luis Costa, chefe global de estratégia para mercados emergentes do Citi. "A maioria dos índices amplos de dívida emergente perdeu terreno no último mês, mas, se você olhar curva por curva", ou mercado por mercado, acrescentou, os rendimentos não subiram de forma tão acentuada em muitos países quanto nos Estados Unidos. Um dos principais riscos é que as ações americanas sofram uma onda de vendas devido à alta dos juros nos EUA, como ocorreu em 2023, reduzindo a demanda por todos os ativos de risco, incluindo os mercados emergentes, disse Costa. Por enquanto, as ações americanas seguem em alta impulsionadas pelo tema da inteligência artificial, e "ainda estamos vendo revisões para cima nas expectativas de lucros", acrescentou. "Juros americanos mais altos e um dólar mais forte elevam a barreira para os mercados emergentes, tanto em títulos soberanos em moeda local quanto em dívida soberana em dólar. Mas a volatilidade contida, fundamentos mais sólidos e spreads resilientes apontam para retornos modestos, e não para uma venda desordenada", disse James Lord, estrategista de mercados emergentes do Morgan Stanley. Na dívida em moeda local, a alta dos preços do petróleo e da inflação neste ano levou os bancos centrais de muitos países a manter os juros domésticos e, consequentemente, os rendimentos reais —descontada a inflação— em níveis relativamente altos, após anos de maior controle dos preços do que nos mercados desenvolvidos. "Os mercados emergentes estão se sustentando", disse Harriet Ballard, gestora de portfólio de múltiplos ativos da Aviva Investors. Segundo ela, sua posição aposta na valorização das moedas de mercados emergentes em relação ao dólar, diante de "uma perspectiva de crescimento mais positiva para essa região". "Em termos de credibilidade fiscal e crescimento, muitos mercados emergentes estão em uma boa posição em relação aos mercados desenvolvidos", afirmou. "Essa diferença diminuiu." Lesetja Kganyago, presidente do banco central da África do Sul, afirmou nesta semana que reformas para conter o alto endividamento e a inflação "foram importantes para nos proteger da reprecificação global dos títulos em 2026", embora o banco não tenha atingido sua meta de inflação nos últimos seis meses. "Não estou feliz por estarmos ficando aquém [da meta]. Mas seis meses é muito melhor do que 67 meses, que é o intervalo desde a última vez em que a inflação americana esteve na meta", afirmou. O rendimento atual dos títulos sul-africanos de longo prazo em rand, de cerca de 9%, "é aproximadamente o mesmo nível do fim de 2025 e bem abaixo dos níveis anteriores", acrescentou, mesmo com os rendimentos dos treasuries americanos atingindo os maiores níveis em décadas. Alguns investidores mantiveram posições em apostas mais específicas nos mercados emergentes, como países de fronteira ricos em petróleo e com juros particularmente altos. Um índice do JPMorgan recém-criado para títulos em moeda local de mercados de fronteira teria acumulado alta de entre 7% e 8% neste ano, com base em dados de preços. O índice inclui exportadores de petróleo, como Nigéria e Cazaquistão, que registraram algumas das maiores valorizações de suas moedas em relação ao dólar neste ano. Países como Argentina e Egito estão particularmente expostos à alta dos rendimentos porque precisam refinanciar grandes volumes de dívida de curto prazo. Em outros, como África do Sul, Tailândia e Malásia, porém, mercados domésticos de capitais mais profundos estão substituindo a necessidade de financiamento em dólar, segundo analistas da S&P Global. Um dólar mais forte e rendimentos mais altos nos EUA "vão expor uma divisão crescente entre tomadores de recursos apoiados por mercados domésticos profundos e flexibilidade de política econômica e aqueles dependentes de capital externo, com grandes necessidades de refinanciamento", disseram os analistas. Analistas do Bank of America argumentaram recentemente que investidores historicamente tendem a vender títulos de mercados emergentes denominados em dólar quando o rendimento do índice do JPMorgan chega a 8%, sinal de que os riscos estão superando a atratividade dos rendimentos adicionais. O rendimento do índice está atualmente em 7,2%. "No momento, nós [nos mercados emergentes] estamos de certa forma imunes aos problemas dos mercados desenvolvidos. Mas, se houver um aumento significativo dos spreads nos mercados desenvolvidos, os emergentes não ficarão imunes para sempre", disse Sergei Strigo, gestor de fundos da Amundi.
Escalada do petróleo impacta preço do dólar
O dólar à vista registrou uma forte alta hoje, refletindo o aumento da aversão ao risco no mercado global. Essa movimentação está diretamente ligada à escalada dos preços do petróleo, que intensificam as preocupações com a inflação e a estabilidade econômica mundial. Em um cenário de maior incerteza, os investidores buscam segurança na moeda norte-americana, considerada um porto seguro em momentos turbulentos. Esse comportamento tende a pressionar ainda mais as moedas emergentes, aumentando os desafios para economias dependentes de importações de energia e eletrônicos. - Advertisement - No Brasil, o impacto pode ser sentido tanto nos custos de importação quanto na dinâmica da inflação, exigindo atenção redobrada das autoridades econômicas. . Jaqueline Neo Head de Operações e Câmbio da Be Smart