BRL/USD
MoedaReal Brasileiro/Dólar Americano
Atualizado: 2026-10-02 16:01:01
Resumo Cambial: Real Brasileiro/Dólar Americano
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EUA fecham consulados no Brasil às vésperas da eleição e reacendem alerta sobre interferência
Washington alega “questões de segurança” para suspender serviços diplomáticos a dois dias do primeiro turno; histórico de intervenção norte-americana, desde o golpe de 1964, recoloca soberania no centro do debate Foto; Reprodução A dois dias do primeiro turno das eleições brasileiras, os Estados Unidos suspenderam, nesta sexta-feira (2), os serviços consulares em sua Embaixada, em Brasília, e nos consulados de São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e Porto Alegre. A justificativa apresentada pelo governo de Donald Trump foi a existência de “questões de segurança”, sem que Washington tenha divulgado publicamente qual seria a ameaça específica ou quando os atendimentos serão retomados. A medida ocorre em um momento particularmente sensível. Na quinta-feira (1º), Trump afirmou que acompanha “muito de perto” as eleições brasileiras e classificou o pleito como “muito importante”. O presidente norte-americano não declarou apoio a nenhum candidato nessa manifestação. A coincidência temporal, em meio a uma relação diplomática marcada por fortes tensões entre Washington e o governo Lula, inevitavelmente levanta questionamentos. Até o momento, porém, não há evidência pública de que a suspensão dos serviços consulares tenha sido planejada como instrumento de interferência eleitoral. A própria administração norte-americana não estabeleceu qualquer vínculo entre a medida e a eleição. A Reuters informou que o Departamento de Estado citou preocupações de segurança não especificadas e que autoridades americanas disseram estar coordenando o tema com o governo brasileiro. A ameaça que não foi explicada Segundo informações divulgadas pela imprensa, funcionários da Embaixada em Brasília foram orientados a trabalhar de casa. O governo dos EUA não detalhou a natureza da ameaça que motivou a decisão nem informou se houve uma ameaça dirigida especificamente aos postos consulares. A suspensão também foi acompanhada pelo fechamento da Embaixada da Austrália em Brasília, igualmente sob a justificativa de “preocupações com a segurança”. A coincidência reforça a necessidade de esclarecimento sobre o que exatamente motivou os alertas diplomáticos. O governo brasileiro recebeu a decisão com desconfiança, embora a avaliação de integrantes do Executivo seja de que a eventual ameaça deve ser investigada pelas autoridades de segurança. É justamente aí que começa a questão política: se existe uma ameaça concreta, é necessário saber qual é sua natureza, sua origem e por que ela exigiu o fechamento simultâneo de postos diplomáticos em cinco cidades brasileiras. Se não houver uma explicação pública mais detalhada, a medida permanecerá cercada de dúvidas em um momento no qual qualquer movimento de uma potência estrangeira ganha enorme peso político. O fantasma de 1964 O alerta sobre possíveis interferências norte-americanas não surge do nada. O Brasil tem um precedente histórico incontornável: o golpe militar de 1964. Documentos oficiais do próprio governo dos Estados Unidos, posteriormente desclassificados, mostram que Washington preparou uma operação para apoiar as forças militares e políticas que se levantaram contra o presidente João Goulart. Em 31 de março de 1964, o Departamento de Estado determinou o envio de uma força-tarefa naval para a costa brasileira, com um porta-aviões, destróieres e navios-tanque. Também foram planejados o envio de combustível, munição e outros equipamentos para apoiar os grupos contrários a Goulart. O plano recebeu o codinome Operation Brother Sam. Um telegrama secreto do Departamento de Estado, datado de 31 de março, é particularmente revelador. O documento previa o envio de navios-tanque com combustível, de uma força naval e de cerca de 110 toneladas de munição e equipamentos, além de um plano de transporte aéreo para São Paulo. A documentação registra que essas medidas tinham como objetivo deixar os Estados Unidos em condições de “prestar assistência” às forças anti-Goulart, caso Washington decidisse fazê-lo. Outro documento da mesma coleção registra a discussão sobre a possibilidade de uma intervenção aberta caso houvesse uma guerra civil. A orientação previa que os Estados Unidos estivessem preparados para fornecer armas e apoio material à facção cuja vitória melhor atendesse aos interesses norte-americanos. A operação naval acabou não sendo necessária para sustentar militarmente o golpe porque a queda de Goulart ocorreu rapidamente. Mas o episódio deixa uma evidência histórica que não pode ser apagada: os Estados Unidos estavam preparados para intervir em favor dos setores que derrubaram o presidente brasileiro democraticamente eleito. Não se trata, portanto, de uma teoria conspiratória. Trata-se de documentação produzida pelo próprio governo norte-americano. Da Guerra Fria à eleição de 2026 Mais de seis décadas depois, o contexto é completamente diferente. O Brasil é uma democracia consolidada institucionalmente, não existe qualquer evidência pública de que Washington esteja preparando uma intervenção militar e o fechamento temporário dos serviços consulares não pode ser equiparado à Operação Brother Sam. A comparação histórica, entretanto, é útil para lembrar que a política externa dos Estados Unidos já interferiu diretamente nos rumos políticos brasileiros – inclusive com disposição para apoiar uma ruptura institucional. E o contexto atual merece atenção. O governo Lula vem denunciando tentativas de interferência estrangeira no processo político brasileiro. No fim de setembro, a Reuters informou que autoridades brasileiras haviam apresentado a representantes da França e da Alemanha informações sobre alegadas interferências eleitorais dos Estados Unidos e da Rússia. Segundo a reportagem, a Abin teria relatado ações norte-americanas que iam de iniciativas relacionadas a “lawfare” a ações mais ostensivas. Estados Unidos e Rússia não haviam respondido às alegações até a publicação. Ao mesmo tempo, Trump declarou publicamente, na véspera da suspensão dos serviços consulares, que acompanha a eleição brasileira “muito de perto”. A declaração ganha peso adicional porque o pleito coloca frente a frente Lula e Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro e candidato apoiado pelo campo político de extrema direita. É nesse cenário que a soberania nacional volta a ocupar espaço no debate eleitoral. Segurança ou pressão política? A resposta oficial de Washington é objetiva: segurança, mas também seria ingênuo ignorar o contexto. O fechamento ocorre 48 horas antes da abertura das urnas, depois de uma declaração de Trump sobre a importância da eleição brasileira e em meio a um histórico recente de atritos entre Washington e Brasília. A própria Reuters registra que o governo Lula tem manifestado preocupação com possíveis interferências externas no processo eleitoral. A pergunta que fica não é apenas por que os Estados Unidos fecharam seus consulados. É por que uma potência estrangeira, às vésperas de uma eleição decisiva para o Brasil e para toda a América Latina, adotou uma medida dessa dimensão sem apresentar publicamente os elementos que justificariam o alerta de segurança. Se existe uma ameaça real, que ela seja investigada e esclarecida. Se não existe relação com a eleição, que isso também seja demonstrado. Porque a soberania brasileira não é uma questão de esquerda ou direita, é um princípio democrático básico. E a história ensina que ela não deve ser tratada como detalhe. Em 1964, os Estados Unidos estiveram preparados para apoiar militarmente aqueles que derrubaram um governo constitucional brasileiro. Em 2026, qualquer alegação de interferência estrangeira precisa ser examinada com rigor – sem paranoia, mas também sem amnésia histórica. Às vésperas de uma eleição presidencial, transparência é o mínimo que se espera de governos estrangeiros que atuam em território brasileiro.
The Economist: Próximo presidente do Brasil será 'nepo baby' vingativo ou esquerdista decadente
The Economist Poucos países têm a sorte do Brasil. Não enfrenta ameaça de invasão. Sua economia é mais resiliente às tarifas sem sentido de Donald Trump do que a de quase qualquer outro país. Desfruta de relações relativamente amistosas com as duas superpotências. Acima de tudo, está repleto de recursos cobiçados. Mas, enquanto o Brasil se prepara para as eleições gerais de 4 de outubro, um velho ditado —de que é o país do futuro e sempre será— volta a soar verdadeiro. Em vez de capitalizar suas vantagens, o Brasil está praticamente fadado a optar por mais quatro anos de impasse polarizado. Empatados nas pesquisas estão Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente de 80 anos conhecido como Lula, e Flávio Bolsonaro, filho mais velho de Jair Bolsonaro, ex-presidente populista que cumpre pena de 27 anos por tramar um golpe após perder a reeleição em 2022. É como se fosse Bernie Sanders contra Donald Trump Jr. —se o Trump mais jovem tivesse ligações com o submundo do crime. Lula e Flávio segurando imagens de Nossa Senhora Aparecida, personagem de celeuma da semana - Instagram de Janja e Bruno Santos/Reprodução / Folhapress A disputa é um concurso de impopularidade. Brasileiros temem que Lula leve a economia à ruína, enquanto escolher Flávio pode significar guerras culturais, estrago ambiental e relações desconfortavelmente próximas com o governo Trump. Nenhum dos dois candidatos receberá o mandato robusto necessário para enfrentar o mal-estar fiscal do país ou a disfunção institucional. Paira sobre a eleição um sórdido escândalo de corrupção envolvendo festas regadas a bacanal e um banqueiro playboy, que enredou toda a classe política e também o poderoso Supremo Tribunal Federal —até aqui, a última linha de defesa contra uma elite que trabalha para si mesma. As apostas dificilmente poderiam ser mais arriscadas. O governo vive muito além de suas posses, e seus credores começam a ficar inquietos. Trump trata a América Latina como um playground pessoal: sequestrou o presidente da Venezuela, sustenta o da Argentina, endossa populistas de direita afinados com ele numa série de eleições e explode barcos no Caribe. Se o Brasil, o maior país da região e um centro de gravidade rival, se alinhar de perto aos Estados Unidos, ele ficará ainda mais encorajado. Para completar, quem vencer a eleição vai nomear quatro dos 11 ministros do Supremo, moldando o país por uma geração. Verde e ouro O Brasil é um verdadeiro Eldorado. Enquanto o resto do mundo enfrenta escassez de petróleo e de alternativas renováveis, o Brasil transborda de ambos. Em agosto, a Petrobras descobriu seu primeiro petróleo na Margem Equatorial, a província petrolífera de crescimento mais rápido do mundo, na costa nordeste da América do Sul. Isso deve, com o tempo, reforçar sua já prodigiosa produção nos campos do pré-sal, na costa leste do país. Nada menos que 89% da eletricidade brasileira vem de fontes renováveis, majoritariamente hidrelétricas. Energia eólica e solar cresceram tão rápido que a rede muitas vezes não consegue absorver toda a produção. O excedente de energia verde poderia alimentar data centers e transformar o Brasil num polo de produção de aço de baixo carbono e de combustíveis limpos para aviação e navegação. A abundância em energia é equiparada pela de alimentos. Até os anos 1970, a fome severa era comum, o que empurrou milhões de migrantes —incluindo um jovem Lula e seus sete irmãos— do árido Nordeste para as megacidades do Sul. Depois, avanços na pesquisa agrícola abriram o interior à pecuária e à agricultura. Neste ano, o Brasil deve ultrapassar os Estados Unidos como maior exportador agrícola do mundo. Hoje é líder em carne bovina, café, algodão, suco de laranja, soja e cana-de-açúcar. No ano passado, Trump precisou revogar tarifas que havia imposto a produtos agrícolas brasileiros durante o julgamento de Bolsonaro, depois que elas ajudaram a elevar os preços de alimentos nos Estados Unidos. Também há riqueza no subsolo. O Brasil tem a segunda maior reserva mundial de terras raras, grupo de minerais usados em muitos produtos de alta tecnologia, hoje produzidos e processados quase exclusivamente por empresas chinesas. O Brasil poderia, assim, ser central nos esforços de países ocidentais para garantir fornecedores alternativos. Emissários europeus e americanos estão "nos assediando por acordos de terras raras, num sentido positivo", diz um diplomata em Brasília. Essa fartura de energia, alimentos e minerais fez do Brasil o maior receptor de investimento estrangeiro direto entre os países em desenvolvimento no ano passado, atrás apenas da China. Atraiu US$ 77 bilhões, bem à frente dos US$ 39 bilhões da Índia. "O Brasil tem ativos concretos que vão ganhar valor num mundo de maior conflito geopolítico", diz Christopher Garman, do Eurasia Group, consultoria de Nova York. Constelação de queixas Ainda assim, problemas graves seguram a economia, apesar do entusiasmo estrangeiro. Juros reais de 9% estão sufocando o crescimento. Eles impulsionaram uma alta na inadimplência de empresas e no endividamento das famílias. Lula enfrenta dilema parecido com o de Joe Biden, outro líder idoso cuja campanha de reeleição sofreu porque eleitores se sentiam pessimistas com a economia. Mais da metade dos brasileiros diz que a economia está em estado ruim ou muito ruim, fatia que vem subindo nos últimos meses. Cerca de 9 milhões de empresas estão inadimplentes, ante 4 milhões uma década atrás, quando o Brasil estava em recessão. O pagamento de dívidas consome 30% da renda média das famílias, segundo a Tendências, consultoria de São Paulo —o maior nível desde que a série começou a ser medida, em 2004. A raiz do problema é o próprio endividamento pesado do governo, que empurra os juros para cima para todo mundo. Sua dívida soma quase 100% do PIB. O déficit passa de 9% do PIB. O governo paga uma fatia do PIB em juros maior que a de qualquer grande país, exceto Egito e Paquistão. O histórico de hiperinflação e recessões do Brasil deixa credores especialmente cautelosos. Boa parte da dívida está atrelada a juros locais, o que significa que, toda vez que eles sobem, o custo de rolar a dívida sobe também. Ao longo de três mandatos como presidente —de 2003 a 2011 e desde 2023— Lula gastou generosamente em transferências de renda e crédito subsidiado. Em 17 de setembro, por exemplo, aumentou em 15% os pagamentos do programa social-bandeira do governo, o Bolsa Família. Os brasileiros gastaram de bom grado esse dinheiro extra, o que manteve a economia crescendo e o desemprego baixo. Mas a produtividade estagnou, e os consumidores parecem estar desacelerando. Economistas esperam crescimento anual médio de cerca de 1% em 2027 e 2028. No início deste mês, Lula ofereceu uma solução alarmante: "precisamos acabar com essa bobagem de fazer superávit e manter disciplina fiscal." Inevitavelmente, o Brasil está ficando para trás. Em 1980, os brasileiros eram nitidamente mais ricos que chilenos e colombianos, para não falar de turcos e chineses, medido pelo PIB per capita ajustado pelo custo de vida. Hoje, os colombianos alcançaram o Brasil, e os demais estão todos muito mais ricos. Os Bolsonaros, populistas inveterados, não são muito melhores. Bolsonaro rompeu um teto de gastos que havia sido imposto em 2016 para recuperar a confiança do mercado. Para melhorar suas chances de reeleição, triplicou o valor pago pelo Bolsa Família e quase dobrou o número de beneficiários. Embora Flávio prometa sobriedade fiscal, em julho, quando sua aprovação começou a cair entre as mulheres, prometeu celular e internet gratuitos a 70 milhões delas. Os dois candidatos terão dificuldade em enfrentar os grupos de interesse que empurram os gastos para cima. Um deles é o dos aposentados, que conseguiram garantir aumentos constantes em seus benefícios. O salário mínimo no Brasil é reajustado anualmente com base na inflação e no crescimento do PIB dos dois anos anteriores. As aposentadorias são indexadas ao salário mínimo, assim como o auxílio-doença, o seguro-desemprego e outros benefícios. Isso significa que, para cada aumento de um real no salário mínimo mensal, o gasto público anual sobe R$ 400 milhões. Essa indexação está devorando o orçamento federal: 90% dele hoje vai para gastos obrigatórios, majoritariamente aposentadorias. Na trajetória atual, não sobrará dinheiro para gastos discricionários até 2029, precipitando uma paralisação do governo. Esse mimo aos idosos tira dos jovens escolas, saúde e estradas melhores. O Brasil gasta 10% do PIB com aposentadorias, quase o mesmo que o Japão, mesmo com uma população muito mais jovem. Enquanto isso, investe apenas 18% do PIB, menos da metade da fatia da Índia. Funcionários públicos mimados são outro peso sobre o orçamento. A Constituição diz que nenhum servidor pode ganhar mais que os ministros do Supremo, que recebem R$ 46.366,19 por mês. Ainda assim, mais de 67 mil servidores ganham bem mais que isso, graças a auxílios não tributados de moradia, transporte e outros. Esses "supersalários", como a imprensa local os apelidou, elevam o rendimento médio de juízes e promotores a 48 vezes o valor nacional (o juiz mais bem pago dos Estados Unidos ganha apenas seis vezes o salário médio do país). "O Brasil foi feito refém pelos servidores públicos do topo da pirâmide", diz Guilherme Coelho, da Republica.org, organização de pesquisa que analisa desperdício no governo. Benefícios fiscais imerecidos são um terceiro fardo. Brechas de impostos, algumas delas costuradas na própria Constituição, custam impressionantes 7% do PIB ao ano, ante 2% em 2003. "Aqui as empresas não competem por fatia de mercado, mas por fatia do governo", diz um economista. Médicos, advogados e outros profissionais liberais também desfrutam de acordos vantajosos. Em tese, os dois candidatos estão decididos a combater interesses enraizados. Lula eliminou alguns benefícios fiscais e dificultou a criação de novos. Um assessor de Flávio ataca com entusiasmo os "parasitas" do Estado. Daniella Marques, que lidera a política econômica de sua campanha, já elogiou Javier Milei, o presidente libertário da Argentina, como "um ótimo exemplo". Mas, quando pressionada, sua equipe oferece poucos detalhes concretos. Na prática, quem vencer terá dificuldade em conter esses gastos. A reforma da Previdência é politicamente difícil no Brasil como em qualquer outro lugar. Na última década, uma sucessão de presidentes fracos cedeu o controle de um quarto do gasto discricionário a parlamentares, para distribuir em seus redutos com pouca fiscalização. Boa parte do dinheiro acabou no bolso de aliados, em vez de ir para escolas ou postos de saúde locais. Nos últimos quatro anos, Lula não conseguiu restaurar a ordem. O próximo Congresso deve ser dominado por partidos de direita, o que pode tornar ainda mais difícil governar. Flávio também não conseguiu conquistar muitos deles. Para avançar sua agenda, qualquer um dos dois precisaria continuar comprando o apoio do Congresso. O Congresso não é a única instituição com motivações questionáveis. Em 2023, o Supremo passou a permitir que ministros julgassem casos envolvendo empresas ou pessoas ligadas a parentes seus. Oito dos dez ministros atuais do Supremo têm parentes trabalhando em escritórios de advocacia que representam partes em processos na Corte. Clientes sem escrúpulos os contratam na esperança de receber tratamento especial. A disseminação do tráfico de influência ficou evidente com o colapso do Banco Master, instituição tomada por fraudes. Seu dono, Daniel Vorcaro, dava festas luxuosas para políticos e juízes, trazendo de avião profissionais do sexo da Rússia, da Venezuela e de outros países. Tinha preferência por garotas de programa estrangeiras porque elas não entendiam as conversas dos clientes. Numa festa de Halloween num clube chamado "Madame Satan", compareceram 120 mulheres e apenas 20 homens, a maioria políticos. "O Davi está surtando perguntando se as suíças vêm", dizia uma mensagem de texto entre o banqueiro e seu operador, numa aparente referência a Davi Alcolumbre, presidente do Congresso (ele nega). Depois que Vorcaro foi preso tentando fugir num jato particular em novembro passado, a Polícia Federal vasculhou seus oito celulares. Quase metade do Supremo tinha ligações com ele, revelou a apuração. Mensagens sugerem que Vorcaro pagou uma acompanhante para um ministro, comprou uma participação de US$ 4 milhões num hotel de outro e contratou a esposa e os filhos de outros dois ministros com contratos generosos, mas vagos. As instituições brasileiras chegaram, assim, a um ponto de destruição mútua assegurada. Só o Supremo pode investigar políticos por crimes como corrupção. E só políticos podem fazer impeachment de ministros do Supremo —o que estão prometendo fazer. Deputados e senadores têm incentivo para mirar juízes que os investigam, enquanto juízes têm incentivo para mirar parlamentares que querem seu impeachment. O fato de o escândalo do Banco Master envolver toda a elite significa que um acordo de bastidores pode, no fim, livrar todo mundo. Desordem, sem avanço Nenhum dos dois favoritos consegue enfrentar essa podridão. Flávio faz parte dela. Ele afirmou nunca ter conhecido Vorcaro, o que tornou constrangedor o vazamento, em maio, de uma gravação dos dois conversando —especialmente porque ele chama o banqueiro de "meu irmão" e pede dinheiro para bancar um filme sobre o pai. Foram repassados R$ 65 milhões, a maior parte dos quais acabou numa conta bancária ligada ao irmão de verdade de Flávio, Eduardo, que mora no Texas. Flávio também já foi investigado por supostamente embolsar salários de funcionários fantasmas enquanto era vereador no Rio (ele nega) e por seus laços com criminosos locais. Um contato particularmente infame foi Adriano da Nóbrega, ex-capitão da polícia que depois chefiou um grupo de extermínio. Flávio indicou Nóbrega para receber uma medalha depois que ele foi preso por homicídio, e deu empregos à esposa e à mãe dele (diz que não sabia que elas estavam em sua folha de pagamento). Já Lula, embora não tenha sido implicado no caso Banco Master, tem aliados que foram. Seu partido continua manchado por escândalos de corrupção anteriores, e seu filho é investigado por tráfico de influência. A campanha tem sido mesquinha e vazia de conteúdo. A principal proposta de Flávio é perdoar o pai e abrir impeachment contra os ministros que o condenaram. Neste mês, o ex-comandante da Aeronáutica, Carlos Baptista Júnior, publicou um livro detalhando como Bolsonaro tentou convencê-lo, e a outros comandantes militares, a dar um golpe, levantando ideias sobre como anular a eleição que acabara de perder. Bolsonaro só abandonou o plano depois que o comandante do Exército o avisou: "se você fizer isso, vou ter que prendê-lo". Como o pai, Flávio lançou dúvidas sobre as urnas eletrônicas brasileiras, alegando falsamente que o mesmo modelo foi usado numa eleição fraudada na Venezuela —uma invenção completa. Não está claro se ele aceitaria uma vitória de Lula. As outras propostas de Flávio são retórica vazia. Ele diz que vai decretar que "o Brasil pertence ao Senhor Jesus Cristo" e promete castração química para estupradores. Uma vitória sua significaria alinhamento estreito com Trump. Flávio e sua família fizeram lobby junto ao governo Trump para impor tarifas e sanções a desafetos de Bolsonaro. Em comícios de campanha, apoiadores já desfilaram com bandeiras americanas e bonecos infláveis de Trump segurando Lula pela nuca. Flávio parece disposto a aceitar as amplas exigências americanas sobre terras raras. A Casa Branca quer que o Brasil a notifique antes de qualquer venda de empresas ou ativos envolvendo minerais críticos, e que limite o investimento de "entidades estrangeiras de preocupação" —na prática, dando aos Estados Unidos poder de veto sobre o uso dos minerais brasileiros. Ainda assim, a Faria Lima, a Wall Street brasileira, está cautelosamente se alinhando a Flávio, na esperança de que ele cumpra o discurso de corte de gastos. Lula, por sua vez, fala em investir em defesa e inteligência artificial. Tem histórico sólido de redução do desmatamento. Defendeu leis para estimular investimento em data centers e em terras raras, ainda que com forte participação estatal. "Queremos construir uma cadeia produtiva com valor agregado, não simplesmente exportar matéria-prima de forma colonial, deixando para trás só buracos no chão", diz Guilherme Boulos, ministro que trabalha na campanha de Lula. Mas não há dinheiro para pagar pelas ideias de Lula, e ele não tem um plano crível para equilibrar as contas do governo. Em comícios, ele discursa por horas, falando principalmente de suas glórias passadas e de sua trajetória de vida. Sua esposa, bem mais jovem, passou a postar vídeos dele se exercitando para provar que está em forma. Em público, ele usa um chapéu panamá para esconder cicatrizes da remoção de uma pinta e de uma cirurgia após uma queda na banheira. O Brasil não é uma causa perdida. Mesmo com a política mergulhando em escândalo dissoluto, uma sociedade civil robusta, uma imprensa livre pujante e uma polícia federal independente seguem responsabilizando os poderosos. "Pelo menos no Brasil as investigações de corrupção realmente acontecem", observa Celso Rocha de Barros, acadêmico. Jornalistas na Índia e na Turquia talvez olhem para isso com inveja. O Brasil venceu a fome, a hiperinflação, o regime militar e uma tentativa de golpe em poucas décadas. Apesar da disfunção, se vira. O próximo mandato presidencial, porém, deve ser uma bagunça. Nenhum dos dois principais candidatos parece disposto a consertar as contas do governo. Nenhum terá o apoio necessário no Congresso para promover reformas de verdade. Nem o próprio Congresso nem o Judiciário podem corrigir a podridão institucional do Brasil, já que ambos estão implicados nela. As coisas vão piorar antes de melhorar. Texto da The Economist, traduzido por Marcelo Azevedo e publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado em www.economist.com
The Economist: Próximo presidente do Brasil será 'nepo baby' vingativo ou esquerdista decadente
Poucos países têm a sorte do Brasil. Não enfrenta ameaça de invasão. Sua economia é mais resiliente às tarifas sem sentido de Donald Trump do que a de quase qualquer outro país. Desfruta de relações relativamente amistosas com as duas superpotências. Acima de tudo, está repleto de recursos cobiçados. Mas, enquanto o Brasil se prepara para as eleições gerais de 4 de outubro, um velho ditado —de que é o país do futuro e sempre será— volta a soar verdadeiro. Em vez de capitalizar suas vantagens, o Brasil está praticamente fadado a optar por mais quatro anos de impasse polarizado. Empatados nas pesquisas estão Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente de 80 anos conhecido como Lula, e Flávio Bolsonaro, filho mais velho de Jair Bolsonaro, ex-presidente populista que cumpre pena de 27 anos por tramar um golpe após perder a reeleição em 2022. É como se fosse Bernie Sanders contra Donald Trump Jr. —se o Trump mais jovem tivesse ligações com o submundo do crime. Lula e Flávio segurando imagens de Nossa Senhora Aparecida, personagem de celeuma da semana - Instagram de Janja e Bruno Santos/Reprodução / Folhapress A disputa é um concurso de impopularidade. Brasileiros temem que Lula leve a economia à ruína, enquanto escolher Flávio pode significar guerras culturais, estrago ambiental e relações desconfortavelmente próximas com o governo Trump. Nenhum dos dois candidatos receberá o mandato robusto necessário para enfrentar o mal-estar fiscal do país ou a disfunção institucional. Paira sobre a eleição um sórdido escândalo de corrupção envolvendo festas regadas a bacanal e um banqueiro playboy, que enredou toda a classe política e também o poderoso Supremo Tribunal Federal —até aqui, a última linha de defesa contra uma elite que trabalha para si mesma. As apostas dificilmente poderiam ser mais arriscadas. O governo vive muito além de suas posses, e seus credores começam a ficar inquietos. Trump trata a América Latina como um playground pessoal: sequestrou o presidente da Venezuela, sustenta o da Argentina, endossa populistas de direita afinados com ele numa série de eleições e explode barcos no Caribe. Se o Brasil, o maior país da região e um centro de gravidade rival, se alinhar de perto aos Estados Unidos, ele ficará ainda mais encorajado. Para completar, quem vencer a eleição vai nomear quatro dos 11 ministros do Supremo, moldando o país por uma geração. Verde e ouro O Brasil é um verdadeiro Eldorado. Enquanto o resto do mundo enfrenta escassez de petróleo e de alternativas renováveis, o Brasil transborda de ambos. Em agosto, a Petrobras descobriu seu primeiro petróleo na Margem Equatorial, a província petrolífera de crescimento mais rápido do mundo, na costa nordeste da América do Sul. Isso deve, com o tempo, reforçar sua já prodigiosa produção nos campos do pré-sal, na costa leste do país. Nada menos que 89% da eletricidade brasileira vem de fontes renováveis, majoritariamente hidrelétricas. Energia eólica e solar cresceram tão rápido que a rede muitas vezes não consegue absorver toda a produção. O excedente de energia verde poderia alimentar data centers e transformar o Brasil num polo de produção de aço de baixo carbono e de combustíveis limpos para aviação e navegação. A abundância em energia é equiparada pela de alimentos. Até os anos 1970, a fome severa era comum, o que empurrou milhões de migrantes —incluindo um jovem Lula e seus sete irmãos— do árido Nordeste para as megacidades do Sul. Depois, avanços na pesquisa agrícola abriram o interior à pecuária e à agricultura. Neste ano, o Brasil deve ultrapassar os Estados Unidos como maior exportador agrícola do mundo. Hoje é líder em carne bovina, café, algodão, suco de laranja, soja e cana-de-açúcar. No ano passado, Trump precisou revogar tarifas que havia imposto a produtos agrícolas brasileiros durante o julgamento de Bolsonaro, depois que elas ajudaram a elevar os preços de alimentos nos Estados Unidos. Também há riqueza no subsolo. O Brasil tem a segunda maior reserva mundial de terras raras, grupo de minerais usados em muitos produtos de alta tecnologia, hoje produzidos e processados quase exclusivamente por empresas chinesas. O Brasil poderia, assim, ser central nos esforços de países ocidentais para garantir fornecedores alternativos. Emissários europeus e americanos estão "nos assediando por acordos de terras raras, num sentido positivo", diz um diplomata em Brasília. Essa fartura de energia, alimentos e minerais fez do Brasil o maior receptor de investimento estrangeiro direto entre os países em desenvolvimento no ano passado, atrás apenas da China. Atraiu US$ 77 bilhões, bem à frente dos US$ 39 bilhões da Índia. "O Brasil tem ativos concretos que vão ganhar valor num mundo de maior conflito geopolítico", diz Christopher Garman, do Eurasia Group, consultoria de Nova York. Constelação de queixas Ainda assim, problemas graves seguram a economia, apesar do entusiasmo estrangeiro. Juros reais de 9% estão sufocando o crescimento. Eles impulsionaram uma alta na inadimplência de empresas e no endividamento das famílias. Lula enfrenta dilema parecido com o de Joe Biden, outro líder idoso cuja campanha de reeleição sofreu porque eleitores se sentiam pessimistas com a economia. Mais da metade dos brasileiros diz que a economia está em estado ruim ou muito ruim, fatia que vem subindo nos últimos meses. Cerca de 9 milhões de empresas estão inadimplentes, ante 4 milhões uma década atrás, quando o Brasil estava em recessão. O pagamento de dívidas consome 30% da renda média das famílias, segundo a Tendências, consultoria de São Paulo —o maior nível desde que a série começou a ser medida, em 2004. A raiz do problema é o próprio endividamento pesado do governo, que empurra os juros para cima para todo mundo. Sua dívida soma quase 100% do PIB. O déficit passa de 9% do PIB. O governo paga uma fatia do PIB em juros maior que a de qualquer grande país, exceto Egito e Paquistão. O histórico de hiperinflação e recessões do Brasil deixa credores especialmente cautelosos. Boa parte da dívida está atrelada a juros locais, o que significa que, toda vez que eles sobem, o custo de rolar a dívida sobe também. Ao longo de três mandatos como presidente —de 2003 a 2011 e desde 2023— Lula gastou generosamente em transferências de renda e crédito subsidiado. Em 17 de setembro, por exemplo, aumentou em 15% os pagamentos do programa social-bandeira do governo, o Bolsa Família. Os brasileiros gastaram de bom grado esse dinheiro extra, o que manteve a economia crescendo e o desemprego baixo. Mas a produtividade estagnou, e os consumidores parecem estar desacelerando. Economistas esperam crescimento anual médio de cerca de 1% em 2027 e 2028. No início deste mês, Lula ofereceu uma solução alarmante: "precisamos acabar com essa bobagem de fazer superávit e manter disciplina fiscal." Inevitavelmente, o Brasil está ficando para trás. Em 1980, os brasileiros eram nitidamente mais ricos que chilenos e colombianos, para não falar de turcos e chineses, medido pelo PIB per capita ajustado pelo custo de vida. Hoje, os colombianos alcançaram o Brasil, e os demais estão todos muito mais ricos. Os Bolsonaros, populistas inveterados, não são muito melhores. Bolsonaro rompeu um teto de gastos que havia sido imposto em 2016 para recuperar a confiança do mercado. Para melhorar suas chances de reeleição, triplicou o valor pago pelo Bolsa Família e quase dobrou o número de beneficiários. Embora Flávio prometa sobriedade fiscal, em julho, quando sua aprovação começou a cair entre as mulheres, prometeu celular e internet gratuitos a 70 milhões delas. Os dois candidatos terão dificuldade em enfrentar os grupos de interesse que empurram os gastos para cima. Um deles é o dos aposentados, que conseguiram garantir aumentos constantes em seus benefícios. O salário mínimo no Brasil é reajustado anualmente com base na inflação e no crescimento do PIB dos dois anos anteriores. As aposentadorias são indexadas ao salário mínimo, assim como o auxílio-doença, o seguro-desemprego e outros benefícios. Isso significa que, para cada aumento de um real no salário mínimo mensal, o gasto público anual sobe R$ 400 milhões. Essa indexação está devorando o orçamento federal: 90% dele hoje vai para gastos obrigatórios, majoritariamente aposentadorias. Na trajetória atual, não sobrará dinheiro para gastos discricionários até 2029, precipitando uma paralisação do governo. Esse mimo aos idosos tira dos jovens escolas, saúde e estradas melhores. O Brasil gasta 10% do PIB com aposentadorias, quase o mesmo que o Japão, mesmo com uma população muito mais jovem. Enquanto isso, investe apenas 18% do PIB, menos da metade da fatia da Índia. Funcionários públicos mimados são outro peso sobre o orçamento. A Constituição diz que nenhum servidor pode ganhar mais que os ministros do Supremo, que recebem R$ 46.366,19 por mês. Ainda assim, mais de 67 mil servidores ganham bem mais que isso, graças a auxílios não tributados de moradia, transporte e outros. Esses "supersalários", como a imprensa local os apelidou, elevam o rendimento médio de juízes e promotores a 48 vezes o valor nacional (o juiz mais bem pago dos Estados Unidos ganha apenas seis vezes o salário médio do país). "O Brasil foi feito refém pelos servidores públicos do topo da pirâmide", diz Guilherme Coelho, da Republica.org, organização de pesquisa que analisa desperdício no governo. Benefícios fiscais imerecidos são um terceiro fardo. Brechas de impostos, algumas delas costuradas na própria Constituição, custam impressionantes 7% do PIB ao ano, ante 2% em 2003. "Aqui as empresas não competem por fatia de mercado, mas por fatia do governo", diz um economista. Médicos, advogados e outros profissionais liberais também desfrutam de acordos vantajosos. Em tese, os dois candidatos estão decididos a combater interesses enraizados. Lula eliminou alguns benefícios fiscais e dificultou a criação de novos. Um assessor de Flávio ataca com entusiasmo os "parasitas" do Estado. Daniella Marques, que lidera a política econômica de sua campanha, já elogiou Javier Milei, o presidente libertário da Argentina, como "um ótimo exemplo". Mas, quando pressionada, sua equipe oferece poucos detalhes concretos. Na prática, quem vencer terá dificuldade em conter esses gastos. A reforma da Previdência é politicamente difícil no Brasil como em qualquer outro lugar. Na última década, uma sucessão de presidentes fracos cedeu o controle de um quarto do gasto discricionário a parlamentares, para distribuir em seus redutos com pouca fiscalização. Boa parte do dinheiro acabou no bolso de aliados, em vez de ir para escolas ou postos de saúde locais. Nos últimos quatro anos, Lula não conseguiu restaurar a ordem. O próximo Congresso deve ser dominado por partidos de direita, o que pode tornar ainda mais difícil governar. Flávio também não conseguiu conquistar muitos deles. Para avançar sua agenda, qualquer um dos dois precisaria continuar comprando o apoio do Congresso. O Congresso não é a única instituição com motivações questionáveis. Em 2023, o Supremo passou a permitir que ministros julgassem casos envolvendo empresas ou pessoas ligadas a parentes seus. Oito dos dez ministros atuais do Supremo têm parentes trabalhando em escritórios de advocacia que representam partes em processos na Corte. Clientes sem escrúpulos os contratam na esperança de receber tratamento especial. A disseminação do tráfico de influência ficou evidente com o colapso do Banco Master, instituição tomada por fraudes. Seu dono, Daniel Vorcaro, dava festas luxuosas para políticos e juízes, trazendo de avião profissionais do sexo da Rússia, da Venezuela e de outros países. Tinha preferência por garotas de programa estrangeiras porque elas não entendiam as conversas dos clientes. Numa festa de Halloween num clube chamado "Madame Satan", compareceram 120 mulheres e apenas 20 homens, a maioria políticos. "O Davi está surtando perguntando se as suíças vêm", dizia uma mensagem de texto entre o banqueiro e seu operador, numa aparente referência a Davi Alcolumbre, presidente do Congresso (ele nega). Depois que Vorcaro foi preso tentando fugir num jato particular em novembro passado, a Polícia Federal vasculhou seus oito celulares. Quase metade do Supremo tinha ligações com ele, revelou a apuração. Mensagens sugerem que Vorcaro pagou uma acompanhante para um ministro, comprou uma participação de US$ 4 milhões num hotel de outro e contratou a esposa e os filhos de outros dois ministros com contratos generosos, mas vagos. As instituições brasileiras chegaram, assim, a um ponto de destruição mútua assegurada. Só o Supremo pode investigar políticos por crimes como corrupção. E só políticos podem fazer impeachment de ministros do Supremo —o que estão prometendo fazer. Deputados e senadores têm incentivo para mirar juízes que os investigam, enquanto juízes têm incentivo para mirar parlamentares que querem seu impeachment. O fato de o escândalo do Banco Master envolver toda a elite significa que um acordo de bastidores pode, no fim, livrar todo mundo. Desordem, sem avanço Nenhum dos dois favoritos consegue enfrentar essa podridão. Flávio faz parte dela. Ele afirmou nunca ter conhecido Vorcaro, o que tornou constrangedor o vazamento, em maio, de uma gravação dos dois conversando —especialmente porque ele chama o banqueiro de "meu irmão" e pede dinheiro para bancar um filme sobre o pai. Foram repassados R$ 65 milhões, a maior parte dos quais acabou numa conta bancária ligada ao irmão de verdade de Flávio, Eduardo, que mora no Texas. Flávio também já foi investigado por supostamente embolsar salários de funcionários fantasmas enquanto era vereador no Rio (ele nega) e por seus laços com criminosos locais. Um contato particularmente infame foi Adriano da Nóbrega, ex-capitão da polícia que depois chefiou um grupo de extermínio. Flávio indicou Nóbrega para receber uma medalha depois que ele foi preso por homicídio, e deu empregos à esposa e à mãe dele (diz que não sabia que elas estavam em sua folha de pagamento). Já Lula, embora não tenha sido implicado no caso Banco Master, tem aliados que foram. Seu partido continua manchado por escândalos de corrupção anteriores, e seu filho é investigado por tráfico de influência. A campanha tem sido mesquinha e vazia de conteúdo. A principal proposta de Flávio é perdoar o pai e abrir impeachment contra os ministros que o condenaram. Neste mês, o ex-comandante da Aeronáutica, Carlos Baptista Júnior, publicou um livro detalhando como Bolsonaro tentou convencê-lo, e a outros comandantes militares, a dar um golpe, levantando ideias sobre como anular a eleição que acabara de perder. Bolsonaro só abandonou o plano depois que o comandante do Exército o avisou: "se você fizer isso, vou ter que prendê-lo". Como o pai, Flávio lançou dúvidas sobre as urnas eletrônicas brasileiras, alegando falsamente que o mesmo modelo foi usado numa eleição fraudada na Venezuela —uma invenção completa. Não está claro se ele aceitaria uma vitória de Lula. As outras propostas de Flávio são retórica vazia. Ele diz que vai decretar que "o Brasil pertence ao Senhor Jesus Cristo" e promete castração química para estupradores. Uma vitória sua significaria alinhamento estreito com Trump. Flávio e sua família fizeram lobby junto ao governo Trump para impor tarifas e sanções a desafetos de Bolsonaro. Em comícios de campanha, apoiadores já desfilaram com bandeiras americanas e bonecos infláveis de Trump segurando Lula pela nuca. Flávio parece disposto a aceitar as amplas exigências americanas sobre terras raras. A Casa Branca quer que o Brasil a notifique antes de qualquer venda de empresas ou ativos envolvendo minerais críticos, e que limite o investimento de "entidades estrangeiras de preocupação" —na prática, dando aos Estados Unidos poder de veto sobre o uso dos minerais brasileiros. Ainda assim, a Faria Lima, a Wall Street brasileira, está cautelosamente se alinhando a Flávio, na esperança de que ele cumpra o discurso de corte de gastos. Lula, por sua vez, fala em investir em defesa e inteligência artificial. Tem histórico sólido de redução do desmatamento. Defendeu leis para estimular investimento em data centers e em terras raras, ainda que com forte participação estatal. "Queremos construir uma cadeia produtiva com valor agregado, não simplesmente exportar matéria-prima de forma colonial, deixando para trás só buracos no chão", diz Guilherme Boulos, ministro que trabalha na campanha de Lula. Mas não há dinheiro para pagar pelas ideias de Lula, e ele não tem um plano crível para equilibrar as contas do governo. Em comícios, ele discursa por horas, falando principalmente de suas glórias passadas e de sua trajetória de vida. Sua esposa, bem mais jovem, passou a postar vídeos dele se exercitando para provar que está em forma. Em público, ele usa um chapéu panamá para esconder cicatrizes da remoção de uma pinta e de uma cirurgia após uma queda na banheira. O Brasil não é uma causa perdida. Mesmo com a política mergulhando em escândalo dissoluto, uma sociedade civil robusta, uma imprensa livre pujante e uma polícia federal independente seguem responsabilizando os poderosos. "Pelo menos no Brasil as investigações de corrupção realmente acontecem", observa Celso Rocha de Barros, acadêmico. Jornalistas na Índia e na Turquia talvez olhem para isso com inveja. O Brasil venceu a fome, a hiperinflação, o regime militar e uma tentativa de golpe em poucas décadas. Apesar da disfunção, se vira. O próximo mandato presidencial, porém, deve ser uma bagunça. Nenhum dos dois principais candidatos parece disposto a consertar as contas do governo. Nenhum terá o apoio necessário no Congresso para promover reformas de verdade. Nem o próprio Congresso nem o Judiciário podem corrigir a podridão institucional do Brasil, já que ambos estão implicados nela. As coisas vão piorar antes de melhorar. Texto da The Economist, traduzido por Marcelo Azevedo e publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado em www.economist.com